"- ... afinal, o que está dando dinheiro?"
Quando ouvi essa indagação, sabia estar diante de alguém com poucas possibilidades de sucesso no almejado papel de empreendedor. Durante muito tempo contribui e orientei futuros empreendimentos. Vi muitos florescerem, vi tantos outros sucumbirem.
A ciência da administração me ajudou bastante a distinguir os bons dos maus negócios, mas a observação da realidade fez com que eu desenvolvesse a intuição, para saber o que vinha ou não com todo o potencial para fazer ou não sucesso no futuro. Quase sempre acerto. E tudo sempre começa com o tipo de indagação feita pelo candidato a empreendedor.
"...afinal, o que está dando dinheiro?" definitivamente não é a melhor pergunta. Por trás dela está o sonho da fortuna fácil e as histórias dos megasucessos da economia americana, quimeras que embalam o imaginário daqueles que esperam transformar-se em um Bill Gates do dia para a noite.
Na década de 80, ocorreu um surto de empreendedorismo. Era o início dos primeiros programas de terceirização e da expansão do
franchising. Muita gente largou seus empregos para montar negócios com tamanha avidez que parecia aquela disposição de "tirar o pai da forca". Animava cada uma dessas pessoas a vaga esperança de, em pouco tempo, acumular riquezas que não conseguiram nos anos de trabalho assalariado.
Acontece que ganhar dinheiro é a mais infeliz das missões quando se deseja abrir um negócio. Sim, o lucro é importante e fundamental para que um negócio prospere, mas ele é somente um meio, o combustível necessário para fazer a máquina andar e crescer. Não pode ser o fim, o propósito.
Nadar a favor da correnteza"- quais os setores que estão em crescimento na economia?"
Essa indagação é melhor do que a primeira. Pretende identificar para que lado sopram os ventos favoráveis da sorte nos negócios. Examinar os ambientes e construir um cenário é um exercício importante de empreendedorismo. A partir daí, é possível identificar os principais vetores de expansão da economia e os segmentos que se beneficiam desse fermento. A busca, nessa caso, não é a do dinheiro fácil, mas a do futuro e a da prosperidade. É nadar no sentido da correnteza, evitando debater-se no sentido contrário.
A construção de cenários é importante para que o novo empreendimento seja colocado diante de uma perspectiva maior, o macroambiente. A partir daí, é possível saber como ele interage com os outros agentes desse macrossistema. Uma empresa relaciona-se com clientes, consumidores, fornecedores, concorrentes, governo etc.
A questão que deve ser colocada é: "qual é o papel desse novo negócio, no macrossistema?" O exercício de construção de cenários permite criar uma visão de futuro para o novo empreendimento. E ter uma visão é uma grande vantagem, sobretudo frente aos que almejam apenas e tão somente o dinheiro e o lucro.
Embora essa indagação seja melhor do que a primeira, ainda assim não é a melhor indagação, aquela que identifica o empreendedor com grandes chances de sucesso, aquela que anuncia um negócio próspero.
Toque de mestre"- eu percebi no mercado uma ausência de... eu gostaria de contribuir com... sinto que ninguém está conseguindo resolver o seguinte problema... eu vou oferecer o seguinte benefício".
Agora, sim, a partir dessas questões estamos diante de um futuro próspero empreendedor. Aquele que, quando entra no mercado, deixa a sua marca. Seu objetivo não é o de extrair, mas o de contribuir. Sua pretensão não é a de comprar, produzir, vender e ficar com o excedente, mas colocar no mercado um negócio diferenciado. Em vez de reduzir-se ao papel de mais um empreendimento, será uma empresa única no mundo dos negócios. Terá uma identidade diferenciada aos olhos de seus clientes, em uma párea de atuação repleta de concorrentes, mas que não lhe fazem frente, porque são iguais entre si.
Ter uma visão, porém, ainda não basta. É preciso, antes de tudo, transformar uma paixão em negócio e gerenciar o negócio com paixão. O toque de mestre desse empreendedor apaixonado é pretender que muitas pessoas, clientes, colaboradores, fornecedores, possam se beneficiar do novo empreendimento.
Um empreendedor novato poderia perguntar com um certo desânimo: "mas o que mais há para ser fazer no mercado? O que ainda falta?" Resposta: paixão!
O mercado está repleto, abarrotado mesmo, de empresas, mas escasso de paixão. De negócios em que as pessoas coloquem alma no que fazem e passem as 24 horas do dia pensando em como fazer o cliente mais feliz. Pessoas que se interessem, de verdade, pelo cliente e seus problemas. Pessoas que, impulsionadas pela sua paixão, usam a imaginação para recriar o negócio todos os dias.
"- empreender onde, em que, quando?"
Faça aquilo que entusiasma você, o que faz brilhar seus olhos e acelerar a pulsação, não aquilo que dizem que está dando dinheiro. Na hora de escolher, use a cabeça para entender o ambiente, mas não deixe de usar o coração para saber o que faz sentido para você. Somente ele, o coração, é capaz de sentir paixão e somente a paixão e capaz de fazer com que você pule cedo da cama, volte para dormir e nesse meio tempo trabalhe com todo o empenho e muito entusiasmo para fazer pessoas felizes. Sim, porque você também estará feliz com o que faz.
Trabalho duro é uma marca comum na vida de todos os empreendedores bem sucedidos, mas pode ter certeza de que os empreendimentos deixam de ser trabalho duro quando são impulsionados por uma paixão.
A mágica da vida
Um empreendimento não precisa continuar com os mesmos propósitos que lhe deram origem. Pessoas e empresas não têm o futuro determinado. O poder da mudança está ao alcance de todos, e essa é a beleza da vida. Mas, para isso, é preciso refazer os planos.
Todos fazem, de um jeito ou de outro, seus planos. Planos são pensamentos, imagens, intenções que antecedem as ações. Pretendem, da melhor forma possível, dar uma direção, um rumo, para que a caminhada não seja feita a esmo. Mas existem planos e planos, e alguns, apesar das melhores intenções, geram apenas simples movimentos e não reais mudanças. Ou seja, balançam, mas sem levar a nenhum lugar. Aí, sim, a profecia do determinismo se realiza.
Tomemos o exemplo do que acontece com grande parte das empresas. Estabelecem suas metas de faturamento. Distribuem seus montantes por produtos, canais de vendas, segmentos de mercado ou qualquer outro critério similar. Estimam as receitas, despesas e lucros. Definem, então, os volumes de compras e planejam a produção. Até aí, tudo bem. Está previsto um grande movimento para o futuro, mas nada que garanta conquistas e realizações. É possível que seja mais um período, recebendo e pagando contas... nada mais. Doze meses depois, simplesmente uma empresa um ano mais velha.
Tome, agora, um outro exemplo. A empresa decide o que fazer para tornar os seus clientes mais satisfeitos. Produz idéias e cria projetos para aumentar ainda mais o grau de fidelização. A atenção está concentrada nessa meta: a felicidade dos clientes, de maneira a que se aproximem cada vez mais. Pensa em aprimorar e criar novos produtos pensa em novos serviços pensa em atender com alto nível de excelência. Estima novos investimentos, sempre direcionados a gerar mais valor para os clientes.
Novas idéias e novos projetos exigem novos conhecimentos. As pessoas de dentro (os colaboradores) assumem a responsabilidade de ampliar seus conhecimentos, desenvolver e adotar novas habilidades e atitudes para surpreender positivamente as pessoas de fora (os clientes). Doze meses depois, uma empresa um ano mais jovem.
Pense, por um momento, em como as pessoas na empresa do primeiro exemplo se planejam para o novo ano. Enfadadas por um filme que já assistiram, preparam-se para alcançar suas metas de vendas e produção, gastando ainda mais suas habilidades, velhas e viciadas, numa repetição diária do que parece não ter fim. E não tem mesmo! Nada mais que um enfadonho e triste moto-contínuo.
Pense, agora, como as pessoas na empresa do segundo exemplo se preparam para o novo ano. Entusiasmadas por desafios ainda não vividos, têm diante de si a possibilidade de aprender mais, para realizar um trabalho que exigirá delas os seus melhores dons e talentos. Sempre e sempre renovados. Como um eterno e motivador recomeço.
Empresas e pessoas não precisam continuar cavando, cada vez mais fundo e escuro, o buraco em que se meteram. A mágica da vida é a mágica da mudança, do movimento. E isso implica novos sonhos, novos propósitos, novas escolhas e novas ações.
Roberto Adami Tranjan é educador e diretor da Metanoia - Educação nos Negócios www.metanoia.net

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