Você quer mesmo saber se o seu empreendimento é promissor? Se ele é capaz de romper com o círculo repetitivo da sobrevivência e tirar partido de todas as suas possibilidades?
O jogo da sobrevivência é muito conhecido. Está no imediatismo e na busca obsessiva por resultados no curto prazo. Está em ganhar, ganhar, ganhar e essa obsessão cria uma miopia diante das oportunidades, da ética e do melhor futuro.
É claro que não era para ser assim. Todo empreendedor sonha com um negócio que possa trazer independência profissional, viabilização financeira, enfim, ganhar algum dinheiro com o que gosta de fazer e destacar-se na multidão.
Um negócio próspero depende de uma visão mais ampla e sistêmica ao contrário de uma visão reduzida e condicionada ao fluxo de caixa. Essa visão mais ampla e sistêmica permite enxergar toda a teia formada pelos vários agentes que ali interagem e contribuem. Vamos denominar essa teia de holograma de mercado.
Antes de prosseguir, vamos juntos criar uma imagem do que seja esse tal holograma de mercado. Imagine uma estrela de cinco pontas formada por: fornecedores, clientes, colaboradores, investidores, empresários. Imagine agora o seu empreendimento no centro da estrela interagindo com todos os demais agentes em uma relação de interdependência e de auto-reforço. Responda: essas relações são saudáveis? Estão alicerçadas na confiança? A verdade é a regra?
Um bom empreendimento deveria conseguir uma relação de equilíbrio com todos os demais agentes. Tal equilíbrio é também denominado de homeostase, em que todos os agentes interagem numa produtiva relação de auto-sustentação e apoio. É como duas crianças brincando de gangorra onde uma facilita o impulso da outra por meio do próprio peso.
Existe esforço em demasia em grande parte das empresas. Isso é decorrente das dificuldades que elas possuem em estabelecer uma relação de equilíbrio entre os vários agentes. A ganância, a obsessão pelo ganho fácil, o imediatismo, a prioridade pelo lucro, o oportunismo sem ética, a relação ganha/perde rompem com o processo de homeostase fazendo com que os empreendimentos percam forças de sustentação no médio e longo prazos.
Vamos detalhar o que ocorre e como poderia ser as diversas relações para que um empreendimento se sustente no curto prazo e se desenvolva no médio e longo prazos.
Relação com fornecedores
Um empreendimento é um grande processo que se inicia em uma demanda declarada pelo cliente e termina na satisfação dessa demanda. Pois bem! Para que seja bem sucedido, é necessário que esse processo seja munido por recursos de vários tipos: matérias-primas, materiais secundários, acessórios. O produto final que irá satisfazer as necessidades dos clientes depende desses insumos. É fundamental que esses parceiros, os fornecedores, sejam tratados adequadamente numa relação ganha-ganha. A relação não deve restringir-se às questões comerciais mas deve estender-se à troca de conhecimentos e sustentada por uma boa relação de confiança.
Não é como normalmente ocorre. A falta de visão sistêmica sobre o que produz resultado faz com que muitos fornecedores sejam esmagados em suas condições de fornecimento. Querer ganhar sobre a fonte de suprimentos é obstruir o fluxo de desenvolvimento do empreendimento.
Relação com concorrentes
Concorrente é uma coisa, rival é outra. Quando o concorrente é compreendido como rival, estabelece-se um duelo. Essa disputa acaba despendendo mais energia do que devia. É comum equipes inteiras preocupadas em combater seus rivais do que em satisfazer os seus clientes. Com isso, canalizam as atenções, os esforços, os tempos e as competências para o alvo errado.
Concorrentes servem como referência para que melhor possam ser compreendidas as diversas forças existentes no mercado, bem como os nichos de oportunidades. Adotando a visão sistêmica é possível compreender que um concorrente pode se transformar em um parceiro em uma união sinérgica de competências, cujo resultado final é o melhor para o cliente.
Relação com clientes
Tudo bem que o cliente tenha sido descoberto nessa década passada e muitos são os discursos pró-clientes. É também verdade que a atenção e o relacionamento com clientes têm melhorado muito principalmente em setores econômicos mais concorridos. Mas, para um grande número de empresas, cliente é o mesmo que faturamento. Quando essa é a mentalidade, muitos contra-sensos são cometidos para que a meta possa ser atingida no final de um período. Esses contra-sensos, na forma de blefes e vantagens escusas, comprometem uma relação mais duradoura embora possa trazer vantagens no curto prazo.
Relação com colaboradores
Se todo o trabalho é feito pelos funcionários e todo o sucesso do empreendimento depende deles, é difícil compreender como boa parte das empresas não consegue tratá-los como parceiros. É comum serem tratados como custos variáveis, em relações efêmeras, de baixa confiança e submetidos ao poder e ao controle de sistemas organizacionais cerceadores.
Modelos autoritários de liderança afetam o processo de homeostase e de equilíbrio. O custo disso tudo está no baixo nível de comprometimento e do baixo engajamento para enfrentar as mudanças necessárias e os melhores desafios.
Relação com investidores
Os investidores querem retorno sobre os seus investimentos. Até aí, tudo bem. Mas, em uma relação de equilíbrio, os investidores deveriam proporcionar mais do que o capital investido e os empreendimentos deveriam oferecer a eles mais que o retorno sobre esse capital.
Os investidores deveriam estar preocupados na contribuição que o seu capital pode dar à sociedade e os empreendimentos deveriam proporcionar sentimentos de orgulho para aqueles que contribuíram com soluções de problemas para a comunidade.
Relação com empresários
De todos, os empresários têm o poder maior em fazer com que os diversos agentes possam viver em uma relação de troca nutritiva, apoio recíproco e reforço mútuo. Cabe a eles, a partir de uma visão sistêmica, harmonizar os mais diversos interesses em prol do ganho comum.
Se trocarem a visão de sobrevivência pela visão de possibilidades, verão que a escassez dará lugar à abundância, a competitividade dará lugar à colaboração, a confiança substituirá o controle e a repetição dará espaço à inovação.
Está aí o caminho para empreendimentos feitos para durar.
Roberto Adami Tranjan é educador e diretor da Metanoia - Educação nos Negócios www.metanoia.net