Quando me deparei com a palavra mitigação tive de recorrer ao dicionário. Não é de uso constante e dificilmente aparece no coloquial. O Aurélio nos ensina que significa abrandar, amansar, suavizar, aliviar. É o contrário da assertividade. Em bom português, mitigação é ver o circo pegar fogo e nada fazer.
A palavra me chamou a atenção na abordagem do jornalista Malcolm Gladwell, colunista do jornal The New Yorker e autor dos livros Blink e Outliers. A sua pesquisa parte dos acidentes de avião e a relação deles com a mitigação, ou seja, a tentativa de modificar ou abrandar o que está sendo dito, principalmente nas relações entre subordinado e superior. Segundo Gladwell, a mitigação é uma das principais razões dos desastres aéreos, devido à dificuldade que o co-piloto tem de se comunicar abertamente com o piloto, por uma questão de hierarquia. Embora sentados lado a lado, eles não conversam de igual para igual, como às vezes se vê nos filmes. E, provavelmente, em proporções similares, a mitigação deve causar danos e prejuízos em outros tipos de atividades, bem como em empresas e negócios.
Duvida? Pense numa régua, com gradação de 1 a 6. Coloque a mitigação à esquerda e a assertividade à direita. Verifique as seis diferentes maneiras de se comunicar e de se relacionar:
1ª) Emitir um palpite: "está acontecendo algo terrível".
2ª) Declarar uma preferência: "acho melhor fazer isso, em vez daquilo".
3ª) Realizar uma consulta: "o que vocês acham que deva ser feito?".
4ª) Sugerir algo: "acho bom fazer isso".
5ª) Afirmar com veemência: "precisamos fazer, agora!".
6ª) Dar uma ordem: "faça e agora!".
Os comportamentos mitigadores (à esquerda da régua) são os maiores causadores de acidentes aéreos. Acrescente a essa abordagem os estudos do psicólogo holandês Geert Hofstede sobre o IDP (Índice de Distância do Poder), que envolve as atitudes diante da hierarquia e o grau em que uma cultura valoriza e respeita a autoridade. É como se Hofstede medisse algo parecido com: "entre as ordens do chefe e a necessidade do cliente, a quem você atenderia?". Se o chefe, a situação seria de alto grau de IDP. Se o cliente, de baixo grau de IDP. As pesquisas de Hofstede foram aplicadas aos pilotos e co-pilotos do mundo inteiro, com os seguintes resultados:
Os cinco mais baixos IDPs:
1º) Nova Zelândia
2º) Austrália
3º) África do Sul
4º) Irlanda
5º) Estados Unidos
Os IDPs mais elevados:
1º) Brasil
2º) Coréia do Sul
3º) Marrocos
4º) México
5º) Filipinas
Quando essas listas são comparadas com o número de acidentes aéreos por país, tem-se uma correspondência quase perfeita.
Preocupadas com as constatações de estudos como esses, as companhias aéreas começaram a oferecer treinamentos para fazer com que co-pilotos enfrentem os pilotos com assertividade, derrubando o padrão de relacionamento passivo ou subserviente.
Avalie você também o quanto a mitigação está presente na sua empresa, no seu ambiente de trabalho e nas suas atitudes. E quantos "desastres terrestres" são cometidos no dia a dia, por falta de uma comunicação aberta, livre das cadeias hierárquicas.
Uma vez limpas essas arestas, aí sim, sua empresa estará em curso de cruzeiro, pronta para enfrentar inevitáveis turbulências com amplas condições de sucesso. Desafivele as mordaças e boa viagem!
Roberto Adami Tranjan é educador e diretor da Metanoia - Educação nos Negócios www.metanoia.net