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O sonho de empreender
Volta das férias. Romper com a rotina, conhecer novos lugares, conversar com outras pessoas, tudo inspira novos sonhos. Dentre eles, o sonho de ter o próprio negócio, livrar-se de um emprego que se repete anos após anos e sem melhores expectativas e, sobretudo, ser dono do próprio nariz.

Não são poucos os que acalentam esse desejo, mas não são muitos os que conseguem transformá-lo em realidade. Afinal, como diz aquela letra da música, "mais eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá". E aí está o sonhador diante da sua repetitiva sina de contas para pagar e na busca do sustento financiado por um trabalho sem paixão. E o sonho? Ele que espere o próximo reveillon. 

Têm sonhos e sonhos. Embora pretendam os mesmos resultados, são diferentes na sua natureza. Ter o próprio negócio é o resultado de um desejo cujas premissas diferem entre si.  

Veja as três situações abaixo:

1) Maria cansou de ser dona de casa. O marido trabalha além do horário normal tentando puxar horas-extras que suplementem seu rendimento. Os filhos cresceram e já não demandam os cuidados de mãe. É chegada a hora de Maria ir à luta e complementar a renda familiar com algum tipo de negócio. Soube, por conhecidos, que um pequeno quiosque para servir café expresso pode ser um bom complemento de renda. Começou fazendo as contas dos equipamentos, das instalações, do aluguel de um local, do atendimento. Ao final, tentou estimar a quantidade de cafezinhos que precisariam ser servidos para viabilizar o negócio. De quebra, os lucros seriam compostos por outros quitutes como pão de queijo e sanduíches rápidos. Maria se animou com os prováveis resultados. 

2) João resolveu pesquisar as tendências da economia para empregar suas reservas, advindas de um pacote de demissão voluntária do seu emprego de quinze anos em empresa multinacional. Comprou revistas, pesquisou na internet, conversou com profissionais experientes. Tudo o que João queria era algo que remunerasse o seu capital a uma taxa superior àquela que conseguiria caso aplicasse em títulos do mercado financeiro. E, de preferência, que não lhe desse muita dor de cabeça (isso ele já tinha de sobra no seu ex-emprego). João conseguiu listar algumas boas alternativas e se animou com as diversas possibilidades. 

3) Existe uma coisa que sempre intrigou Antonio: os idosos que se transformavam em estorvos para suas famílias. Após vários anos de vida e labuta, criando filhos e construindo famílias, alguns idosos acabavam seus dias sozinhos e isolados em casas de saúde ou asilos. Antonio sempre acreditou que os idosos mereciam melhor sorte. Por anos, pensou em como poderia contribuir para que esses idosos pudessem ter um final de vida mais gratificante e recompensador. Pensou em várias alternativas, mas a que mais o deixou apaixonado era aquela em que os idosos se sentiam úteis servindo outras pessoas, também idosos, que se hospedassem em um pequeno hotel de lazer na região das montanhas.  

Como o leitor pode notar, as três situações pretendem um mesmo tipo de resultado, qual seja, viabilizar um negócio. As premissas, no entanto, são muito diferentes e até antagônicas. Cada empreendimento será moldado conforme o desejo do seu autor e aquilo que cada um busca na sua essência. 

Maria busca o sustento. Tudo o que ela quer é melhorar a renda familiar para viver de uma forma mais confortável junto com o seu marido. A alternativa do quiosque para servir café expresso surgiu de uma conversa que teve com amigas durante as férias de fim de ano. Aliás, Maria não toma café e não o acha saudável, mas sabe que é uma mania nacional apreciada por grande parte da população.  

João busca rentabilidade. João vê o seu futuro empreendimento, qualquer que seja ele, como uma alternativa na sua carteira de investimentos. Pode ser uma franquia de produtos cosméticos ou um salão de cabeleireiros, uma revistaria ou uma confecção de roupas infantis. Qualquer alternativa desde que a taxa de retorno seja superior às taxas do mercado financeiro. Se a rentabilidade não ocorrer conforme o desejado, não pensará duas vezes para passar o "abacaxi" em frente. 

Antonio busca contribuição e realização. Vê o seu negócio como uma causa. Vê no seu cliente a razão de ser do seu futuro empreendimento. Para Antonio, os negócios existem para contribuir com o mundo e não o inverso. Vê o mercado como um amontoado de necessidades e demandas a espera de respostas e soluções adequadas. Sabe que o seu papel como empreendedor é compreender os seus clientes e os seus desejos. Sabe, também, que o seu papel como empreendedor é criar satisfação para os seus clientes. 

Diante dessas informações, sugiro ao leitor que faça um exercício mental para imaginar como cada um deles conceberá seus empreendimentos. Desde a escolha do local, a contratação de pessoal, o estilo de liderança, o atendimento ao cliente. Pense nos resultados, na viabilização, no futuro e na história que cada um será capaz de contar. Pense também na recompensa material e psicológica.  

Em qual negócio você apostaria?  

Aproveite para avaliar o seu sonho de empreender: está mais para Maria, João ou Antonio?  

Roberto Adami Tranjan é educador e diretor da Metanoia - Educação nos Negócios www.metanoia.net

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