O famoso compositor americano Bob Dylan disse uma vez que "o homem é um sucesso se pula da cama de manhã e vai dormir à noite, e nesse meio tempo faz o que gosta". Quantos, porém, são capazes disso? Quantos são estimulados por esta motivação e por sentimentos de realização? Pelo que se nota, parece ser a minoria. Mas o que faz essa minoria ser tão motivada, enquanto a maioria carrega a sua carcaça a esmo, na medíocre busca da sobrevivência? Será por isso que as estatísticas indicam a tendência de que a depressão pode se tornar a doença mais comum entre os seres humanos, no ano de 2020?
Não é para menos: muitas crises pessoais tem origem em valores desajustados. Pensamentos, sentimentos e comportamentos estão em desarmonia. Se a pessoa não vive o que pensa e sente, permanece muito distante da sua verdade. Pior: é capaz de nem saber mais qual é essa verdade, embora conviva com uma insatisfação constante. A busca da sobrevivência à custa da verdade é uma luta inglória. Ninguém aguenta esse martírio sem desenvolver um duro verniz externo, usado como mecanismo de sobrevivência e de defesa. Daí a mutilação do entusiasmo, da criatividade e da capacidade de auto-realização.
Daniel Goleman tentou buscar respostas para essa questão, em uma pesquisa com cerca de 700 homens e mulheres na faixa de 60 anos, todos bem sucedidos ao final da carreira. Declararam que seus principais fatores de motivação eram o desafio criativo, o estímulo do próprio trabalho e a oportunidade de continuar aprendendo. Em seguida, na mesma escala de prioridades, vinham o orgulho de fazer as coisas, as amizades e a oportunidade de ajudar as pessoas. Muito depois é que citaram o status e, mais adiante ainda, com boa distância dos fatores mais valorizados, é que aparecia o ganho financeiro.
A pesquisa coloca a remuneração pelo trabalho muito aquém do que se imaginava. Afinal, não é esse fator que "motiva" a maioria das carcaças humanas que vagam a esmo - a luta pelos trocadinhos no final do mês? Isso nos remete a uma boa questão: será que as prioridades de nossa escala de valores estão definidas adequadamente? Mais do que isso: será que temos plena consciência dos nossos valores? Enfim, a pergunta fulminante: estamos, de fato, vivendo os nossos valores? E essa é a questão-chave.
A luta pela sobrevivência faz com que as pessoas posterguem ou anulem seus valores. Sem nenhum exagero, isso corresponde a optar pela morte em vida. Afinal, os valores são a nossa força emocional, a origem das nossas motivações, nosso credo mais íntimo, a verdadeira razão da nossa existência.
A força da visão de futuro Viktor Frankl, psiquiatra austríaco de origem judia, foi capturado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e mantido prisioneiro no tenebroso campo de concentração de Auschwitz. Sofreu todas as humilhações e indignidades que poderiam ser impostas a um ser humano, mas - mesmo assim, nessas terríveis circunstâncias - resolveu assumir a sua liberdade e viver os seus valores, ainda que naquele inferno na terra. Escolheu reagir de maneira diferente a tamanho sofrimento, em um lugar onde havia suicídios diários. Obteve força para suportar a privação com dignidade, a partir de três decisões cruciais: sobreviver, ajudar os outros enquanto lá estivesse, e aprender alguma coisa com tudo aquilo. Frankl foi bem sucedido nessa empreitada a que se dedicou. Tornou-se, depois da guerra, um dos mais destacados estudiosos do significado da vida, algo que, mais tarde, inspiraria o conceito de "visão de futuro".
É preciso ter uma visão de futuro, mas ela só terá sentido se incorporar valores pessoais. A visão de futuro funciona como um imã, lembrando diariamente qual é a direção, qual é o sentido, para onde devem ser dirigidas as atenções. Como demonstram os ensinamentos do Tao, para onde vai a atenção, flui a energia e onde flui energia é que as coisas acontecem.
Aí está o processo retroalimentador: visão de futuro com os valores incorporados e concentração, que resulta em um melhor aproveitamento do tempo. Essa é uma das fórmulas das pessoas automotivadas e bem sucedidas: elas controlam suas vidas, com base em seus valores e usando o tempo sabiamente.
Mas o benefício é ainda mais amplo: a visão de futuro tem o poder de tirar as pessoas da aparentemente saborosa, mas ardilosa zona do conforto, levando-as a ingressar corajosamente na instável zona da expansão e do desconforto. Ora, qual a vantagem de trocar o conforto pelo desconforto? Nada menos do que assumir, de maneira integral, o processo da educação, a partir da visão de um de seus maiores estudiosos, Piaget. Ele ensinava que a criança aprende a buscar o equilíbrio quando está em desequilíbrio. O mesmo processo se repete quando somos adultos: precisamos do desequilíbrio (desconforto) para atingirmos o equilíbrio. É isso que nos dá a oportunidade de continuar aprendendo, um dos fatores de satisfação da pesquisa de Goleman.
Em síntese, portanto, a visão de futuro nos mostra a direção, tratando de nos lembrar qual é esse rumo todos os dias os valores são a essência da nossa vontade o desconforto nos incentiva a usar nossos potenciais no limite máximo. Ainda assim, precisamos estar atentos para não vacilar diante das amarras de uma sociedade ainda voltada às normas e regulamentos, decidida a levar às últimas conseqüências o triste lema: "é assim que as coisas funcionam". A força dos valores nos impele a viver nossa liberdade, nossa autonomia. Portanto, nossos valores funcionam como guias dos nossos comportamentos. Em um dos seus discursos, Lou Gerstner, CEO da IBM, disse, com propriedade: "Quero dirigir por princípios e não por procedimentos. Isso significa que quando surge um problema, você não vai a um manual, pois sabe em seu coração e em sua cabeça o que fazer".
Quem possui uma visão clara dos seus próprios valores, também tem clareza de propósitos, um conjunto de fatores vitais, capaz de funcionar como guia e motivador de toda a ação bem sucedida.
Se ainda não experimentou, ouse essa receita. É de sabor tão incomparável que jamais sairá de seu cardápio diário, ao longo da vida inteira.
Roberto Adami Tranjan é educador e diretor da Metanoia - Educação nos Negócios www.metanoia.net

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