A preocupação corre solta: os empresários, com os seus negócios e empresas, os funcionários, com os seus cargos e empregos. E, nessa hora, aciona-se o piloto automático da sobrevivência. A fórmula é muito conhecida: corte de despesas, repasse de custos, negociações com fornecedores. O jogo da retranca entra em campo.
A luta pela sobrevivência parte da premissa da escassez, ou seja, a crença de que não vai ter para todo mundo. Qual é o modelo adotado, em um mundo precário? Lutar com unhas e dentes para conquistar o pouco que existe e defender o que se tem. Ressurgem nas empresas os fantasmas do medo, da ansiedade e do controle. As relações externas, com os fornecedores e clientes tornam-se hostis, um clima que também contagia as internas, ou seja, os integrantes da equipe de trabalho.
A partir desses comportamentos, algumas coisas começam a acontecer: o cliente é deixado de lado, os resultados imediatos são mais importantes do que as expectativas de futuro, as equipes são esfaceladas, os planos são suspensos, as rotinas impedem o aproveitamento das idéias e a inovação parece ser um risco fora de hora.
O controle fica mais intenso e os erros são considerados inadmissíveis, uma vez que implicam perdas e é preciso juntar qualquer migalha para compor um lucro razoável no final do período.
Mas o mercado está aí e não existe demanda zero. Pessoas e empresas estão ávidas para satisfazer seus desejos e ter seus problemas resolvidos. Pagam por isso, desde que seus anseios sejam compreendidos. É aí que entra o ciclo formador de riqueza, qualquer que seja a nova ordem econômica. Nesse ciclo, o mundo é um oceano de possibilidades. Ainda que muitas vezes possa nos parecer que naveguemos à deriva, nesse mar, tudo é uma questão de escolha e busca. A ilha promissora existe e está à nossa espera. Tudo depende de conseguir ler nas entrelinhas das oportunidades. E, claro, manter a atenção sempre ligada nelas.
E aí, o medo, fator propulsor da sobrevivência, dá lugar à coragem, fator impulsionador do ciclo formador de riqueza. E a coragem, por sua vez, é decorrente de alguns compromissos. Vejamos quais são eles:
* Compromisso com os valores internos.
É comum colocar a ética em xeque, em situações de aperto financeiro. A verdadeira riqueza está em não justificar os meios por conta dos fins. A ética deve ser mantida a qualquer custo. No final das tempestades, costuma-se fazer apenas o balanço dos ganhos e das perdas. Mas existem outros balanços importantes, além do financeiro: o balanço das relações (que mede a qualidade dos relacionamentos com funcionários, colegas e clientes) e o balanço dos valores (que mede o padrão moral da organização e como cada um está se sentindo consigo mesmo ao final da batalha). A verdadeira riqueza está em obter saldos positivos nos três balanços, ainda que, para isso, seja necessário sacrificar parte dos ganhos no balanço financeiro.
* Compromisso com o ato de servir.
O discurso de excelência em atendimento ao cliente geralmente é esquecido em tempos de crise. Numa visão introspectiva, todas as atenções voltam-se às metas e ao orçamento. Mas a verdadeira riqueza está em manter a atenção focada nas necessidades dos clientes e no interesse em satisfazê-lo plenamente. A ordem é colocar-se ainda mais a serviço. Dedicação total! E sempre ter como prioridade os deveres e as responsabilidades, antes dos direitos e das recompensas.
* Compromisso com a equipe interna.
É difícil pensar em sobrevivência e em desenvolvimento de equipe ao mesmo tempo. Em mares revoltos, vale a lei do "cada um por si". Mas a verdadeira riqueza está em desenvolver a equipe nas situações mais adversas. Aliás, essas ocasiões oferecem excelentes ensinamentos e oportunidades de aprendizado para todos. Há ganhos de conhecimento, relacionamento e prática dos valores.
Governantes e políticas econômicas mudam, mas o mercado continua funcionando com as suas próprias leis, tal como acontece com a lei da gravidade. A demanda continua procurando e recompensando a melhor oferta. Cabe, às empresas e profissionais de negócios, preparar cuidadosamente o plantio do que é - com certeza - bom para os clientes. Depois, é só colher os frutos. A safra, acreditem!, será generosa.
Roberto Adami Tranjan é educador e diretor da Metanoia - Educação nos Negócios www.metanoia.net