
O jogo que se perde antes do apito final
Foi o que vi e ouvi após a derrota do Brasil contra a Noruega: o velho impulso de encontrar culpados. Foi o técnico. Não, foi o jogador. Não, foi a arbitragem. Não, foi o preparo físico. Foi tudo isso e mais a estratégia.
Compreensível. Afinal, localizar um culpado oferece a sensação de que o problema está resolvido. Basta trocar uma peça, substituir um nome, contratar um novo treinador ou reformular a comissão técnica. A esperança renasce rapidamente para o consolo de todos os envolvidos.
A questão é que nem sempre o problema está nas pessoas. Muitas vezes, está na cultura.
Resultados são fotografias. Cultura é o filme inteiro.
Um gol perdido, um erro de marcação ou uma substituição malfeita podem decidir uma partida, mas dificilmente explicam uma sequência de desempenhos. Quando uma equipe repete os mesmos erros, em diferentes competições, com diferentes treinadores e diferentes jogadores, é hora de fazer uma pergunta desconfortável:
O que estamos cultivando para tornar esses resultados recorrentes?
A pergunta vale para o futebol – e é bom que a CBF a faça –, mas vale ainda mais para as empresas.
Quando uma organização perde talentos repetidamente, é comum responsabilizar a liderança. Quando clientes deixam de voltar, é comum culpar a estratégia comercial ou o mercado. Quando a inovação desaparece, culpa-se a tecnologia, o marketing ou a concorrência.
Raramente a primeira pergunta é sobre a cultura. Toda cultura ensina, entretanto, mesmo quando não pretende ensinar. Ensina pelo que tolera, pelo que recompensa, pelo que ignora, pelo que celebra, pelo que silencia.
Em outras palavras, a cultura não aparece apenas nas declarações de propósito e princípios penduradas na parede. Aparece nas pequenas escolhas que se repetem diariamente até se transformar em hábitos coletivos.
Derrotas são reveladoras. Expõem aquilo que as vitórias costumam esconder. Quando os resultados são favoráveis, muitas fragilidades permanecem veladas. O sucesso cria um tipo de anestesia coletiva. Já a derrota, com o seu jeito implacável, rompe a ilusão. Revela fissuras que já existiam, mas estavam encobertas pelo placar.
A pergunta mais importante depois de uma derrota é:
O que essa derrota está tentando nos ensinar sobre nós mesmos?
Equipes que aprendem com seus tropeços transformam prejuízos em patrimônios. É a cultura que define se alguém terá coragem para inovar ou se um erro será tratado como motivo de vergonha ou recurso de aprendizagem.
Apregoada pela Metanoia, a cultura ética, humana e próspera não elimina derrotas, mas também não as desperdiça como oportunidades de aprendizado. Não vence porque jamais cai, mas porque sabe levantar de um jeito melhor do que quando houve a queda.
No esporte, como na vida e nas empresas, perder faz parte do jogo. O que realmente diferencia os grandes times, os grandes líderes e as grandes empresas não é a ausência de derrotas, mas a coragem e o discernimento de permitir que uma derrota revele aquilo que uma vitória jamais teria revelado.
Uma cultura vencedora é uma cultura aprendente. Quem sabe, agora, tenha chegado o momento de ir mais fundo, em busca da análise correta e da prática necessária.