Parece, mas não é

É fácil confundir as coisas. Parece que é, mas não é! Como diz a sabedoria popular, as aparências enganam e nem tudo o que reluz é ouro. Veja alguns exemplos e cuide para não comprar gato por lebre.

 

Existe grande diferença entre as leis de dentro e as leis de fora. Até produzem resultados diferentes, a depender de sua procedência. Nas empresas, leis de fora são conhecidas como regulamentos. Vi poucas darem certo. São de tal forma ineficazes que, na era da qualidade, resolveram normatizá-las, para que fossem definitivamente sacramentadas e aceitas. É mesmo um embate sem fim, o de querer que as leis de fora vigorem. Podem até funcionar precariamente, diante das ameaças de punição caso não sejam seguidas, mas sempre com grande esforço das partes. E sempre haverá manhas e artimanhas com o intuito de burlá-las.

 

Substituição imprescindível

 

A melhor solução para esse dilema infinito é substituir as leis de fora pelas de dentro. As leis de dentro são os valores. São eles que regem de maneira natural o comportamento das pessoas. Mas, cuidado: líderes controladores ouvem o galo cantar e não sabem onde. Quando se fala em valores, pensam nos organizacionais, como agilidade, competitividade, objetividade. Embora disfarçados de princípios, continuam sendo de fora. E nada têm a ver com valores virtuosos, ou seja, aqueles que habitam o ser humano ao longo de milênios e que o sustentam nessa caminhada: dignidade, respeito ao próximo, liberdade, bondade, solidariedade, entre outros.

 

As leis, sejam de fora ou de dentro, moldam a cultura de uma empresa. Essa é uma das escolhas mais determinantes de todo empreendedor que pretende definir a personalidade do seu negócio. Veja como elas podem parecer iguais, mas não são.

 

Demais e de menos

 

A palavra organização vem do latim ordo e quer dizer o arranjo de elementos feito conforme certos critérios, e ordiri, que é ordenar, dispor tudo de forma regrada, comandar. O significado das palavras está em sua etimologia. Assim, empresas foram organizadas por meio de cargos e funções dispostos em organogramas, o trabalho transformou-se em processos ordenados e delineados na forma de fluxogramas e os acordos, documentados e registrados em cronogramas. Resultado final: grama demais, gana de menos.

 

Uma organização não parece ser, portanto, o ambiente apropriado para oferecer às pessoas o significado que elas buscam no trabalho, ou seja um espaço convidativo ao surgimento de ideias criativas ou propício a que aflorem potencialidades. O que deveria incentivar o nascimento de asas transformou-se em gaiola. A produtividade no lugar da inspiração, a eficiência no lugar da paixão, o controle no lugar da confiança.

 

Comunidade, por sua vez, remete a outro significado, muito diferente. Tem raízes antigas, remonta à base indo-européia mei, que significa “mudança” ou “troca”. Aliou-se a outra raiz, kom, que quer dizer com, para produzir a palavra kommein, ou seja, compartilhada por todos. “Mudança compartilhada por todos” é bastante próxima do sentido de comunidade.

 

O curioso é que mudança, termo tão propagado nos meios empresariais, está inserido em comunidade e é o seu contrário, na palavra organização, que remete à permanência. Não deve causar estranheza, portanto, que a organização tradicional tem cerca de cem anos e a comunidade, no sentido histórico, existe desde que o ser humano tornou-se gregário.

 

Empresas podem parecer organizações ou comunidades. Olhando de fora, parecem a mesma coisa. Vivendo nelas, sabemos bem quais são as diferenças e como elas influenciam a forma de pensar, de criar, de trabalhar, de se realizar e de produzir riquezas.

 

Trilhos e trilhas

 

Não são poucos os líderes de empresas que procuram colocar suas empresas nos trilhos. Querem transformá-las em trens, com estações, velocidades e horários controlados. Querem que os passageiros aceitem suas condições, normas e forma de trabalho. Querem que aceitem as leis de fora que eles, empresários, criaram.

 

Acreditam que a organização foi a melhor concepção dos últimos anos. Oferecem ferramentas que pretendem assegurar a estabilidade das estratégias, a constância dos comportamentos e a regularidade dos números. Vivem a ilusão do controle. Buscam imitar o que fez alguma empresa bem sucedida ou repetir o sucesso do passado, ou, ainda, preservar o êxito que vivenciam atualmente. Só que “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, como dizia o filósofo Heráclito. É exatamente essa insistência em permanecer nos mesmos e desgastados trilhos que vai fazer o seu fracasso.

 

Trilhas são apenas esboços de trajetos, possibilidades. Sinalizam uma direção, mas não asseguram a continuidade da caminhada. É preciso correr riscos, enfrentar imprevistos, lidar com o desconhecido. Não pense na regularidade dos planos de metas ou na infalibilidade dos planejamentos estratégicos. Nem queira que as pessoas se comportem sempre da mesma maneira. Ninguém está no controle, nem mesmo o líder. A trilha é a realidade e o mestre!

 

O líder só controla suas próprias percepções e seu maior desafio é buscar aquelas que melhor representem a realidade. Seu principal compromisso é trazer essa realidade para a sua equipe de trabalho, contribuindo decisivamente para que todos a vivenciem da maneira como se apresenta, abandonando também a ilusão do controle. Aí, sim, poderão, juntos, fazer as melhores apostas para produzir riquezas que sejam superiores.

 

Trilhos e trilhas podem levar ao mesmo destino, mas o percurso e a maneira de trafegar são diferentes. Importante é reconhecer o que você realiza e como você se realiza, enquanto trafega. E como você vai estar no final dessa história.

 

Dos comos e porquês

 

Perguntas existem para investigar a realidade. Usá-las constitui um recurso fundamental de aprendizagem e conhecimento. É importante reconhecer que, antes de tudo, fazem parte do exercício de pensar. Mas existem perguntas e perguntas. Algumas não levam às mesmas respostas nem asseguram que essas seja as melhores. Outras parecem iguais, mas não são. É fundamental considerar que as perguntas revelam muito da qualidade da busca do perguntador e, de alguma forma, adiantam a qualidade de resposta que se vai obter.

 

Por exemplo: uma pergunta iniciada por como remete à busca de algum método, ferramenta ou meio através do qual o problema vai encontrar a solução. É a busca de atalhos na falsa segurança dos trilhos que conduz às organizações regidas pelas leis de fora. Mas se o perguntador for sábio o bastante para buscar respostas via porquês terá chances de fazer outro caminho, o que leva às trilhas tortuosas, que conduzem às comunidades conflituosas de trabalho, onde afloram opiniões e ideias regidas pelas leis de dentro. Lá onde as aparências não enganam e o que reluz é – muito mais que ouro – a metarriqueza.