Entre nessa coopetição!

Coopetição! Esse neologismo, usado pela primeira vez por Ray Noorda, fundador da Novell, une duas palavras – competição e cooperação. Foi o tema instigante do 18º. Congresso Mineiro de Recursos Humanos, do qual participei, contribuindo com a palestra de abertura.

 

Coopetição é uma estratégia de aumentar o tamanho do bolo para que todos obtenham pedaços maiores. Diferente da competição, em que cada um disputa com unhas e dentes a sua fatia, a maior possível, em prejuízo dos que ficam com as restantes, obviamente bem menores. Diferente também da cooperação, em que nem sempre a fatia reservada a cada um faz justiça ao esforço empreendido individualmente.

 

Coopetição é uma tentativa de conciliar o que existe de melhor entre a guerra e a paz e as forças implicadas nesses dois extremos. A conquista de tal equilíbrio é trabalho que exige maestria na arte de se relacionar e de negociar, e que oferece como resultado final uma riqueza superior, altamente recompensadora para todos os envolvidos.

 

 

Os extremos opostos

 

Os valores que governam a competição são diferentes daqueles que promovem a cooperação. De um lado, os racionais e pragmáticos: a agilidade, a objetividade, a produtividade, a competitividade. Do outro lado, os emocionais e abstratos: a colaboração, a contribuição, a solidariedade.

 

Quem enxerga o mundo dos negócios como uma Arena de Guerra costuma suspeitar desses valores mais emocionais e abstratos, duvidando que, de fato, funcionem. Acredita que se trata de um mundo romântico, que não combina com a realidade nua e crua. Por isso, prefere fazer o jogo que conhece, o da disputa.

 

Para quem enxerga o mundo dos negócios como um Espaço de Solidariedade, o efeito é inverso, ou seja, não compreende como, diante da acirrada rivalidade, as partes conseguem ganhar ao longo do tempo. Afinal, já dizia Gandhi, “olho por olho e no futuro todos estaremos cegos”.

 

É diante das indignações de ambas as partes que a coopetição se apresenta como uma terceira via, uma história possível, desde que se aprenda a lidar, de fato, com a diversidade.

 

 

A terceira história

 

Quem acredita no mercado como Arena de Guerra, tem em si a verve do guerreiro. É só o que consegue ver, é nisso que acredita. Essa é a história que conta para si, todos os dias. E como quem conhece, reconhece, é o que essa pessoa constata a cada momento, a uma simples leitura de jornal, acompanhando o noticiário do rádio e da tevê ou nas rodas de conversas: histórias feitas de combates e ciladas, de armadilhas e emboscadas, de mortos e feridos.

 

Risco e perigo são palavras que estão muito presentes no seu cotidiano. Aprende a lidar com o risco, seja para assumi-lo como um desafio, como para contê-lo no limite extremo, de maneira que não apresente perigo. Por isso, o guerreiro tem duas facetas: a do kamikaze, que se lança à luta, e a do fugitivo, que evita ao máximo a sua derrota.

 

No fundo, o guerreiro busca a vitória, muitas vezes a qualquer custo, seja a do confronto, seja a do comedimento. Ser derrotado é o seu grande medo. Vive, portanto, uma história de cavalaria, feita de heróis e quixotes.

 

Quem vivencia o mercado como um Espaço de Solidariedade, tem em si o dom da solidariedade. É o que consegue ver, é no que acredita. Tal como o guerreiro, mas no sentido oposto, a história que conta para si diariamente é a que reconhece, por conhecer. Só vê pela frente o que confirma sua crença: relações de ajuda, generosidade e entrega.

 

O solidário aprende a doar-se, tanto no sentido de esperar o mesmo dos outros, como no de esquecer de si mesmo. Também tem duas facetas: ao mesmo tempo em que espera uma correspondência diante da sua pronta doação e se frustra quando isso não acontece, se doa por completo, não raro deixando a si mesmo à deriva.

 

No fundo, o solidário não quer a solidão e tenta manter os vínculos. Vive uma história inclinada ao altruísmo, da qual nem sempre se beneficia.

 

A terceira história tenta compor um movimento entre o ego e o alter e entre a busca de sucesso e a de significado. É uma história que precisa integrar o imaginário de ambos: o do guerreiro e o do solidário. Somente assim poderá se concretizar.

 

 

Um exemplo

 

Santa Catarina é reconhecido como um importante polo industrial têxtil. Diante das mudanças no mercado, o lucro das empresas não está mais na produção e na busca incessante por produtividade. O lucro está no design e na capacidade de criar, de inovar. As tendências de mercado lançam um desafio: obter o reconhecimento mais pela mentefatura do que pela manufatura, ou seja, pelas artes em lugar das  fábricas.

 

Por isso, foi criada a SCMC, Santa Catarina Moda e Cultura, com o propósito de transformar aquele estado em um polo de moda para o mundo. Reúne 17 empresas, que representam 4 bilhões de reais de faturamento e concentram mais de 10.000 pessoas, diretamente. O conjunto realiza 17 projetos de coopetição, sob a responsabilidade de times criativos, e ainda implica visitações estruturadas e palestras que visam arejar a todos, na busca de respostas criativas, capazes de beneficiar a todos.

 

A SCMC (www.scmc.com.br) é uma prova de que é possível juntar clientes, fornecedores e concorrentes em prol de uma riqueza maior, da qual todos podem se beneficiar.

 

 

O arremate

 

Finalizei a palestra no congresso dizendo que a coopetição é uma estratégia, a troca de óculos para enxergar a realidade de outros ângulos, o ajuste de percepções, a possibilidade de escrever e viver uma terceira história, de experimentar uma convivência melhor com o mercado, um novo jeito de gerar riquezas.

Arrematei deixando um desafio para os profissionais de recursos humanos e que também se estende a todos os que se dedicam a negócios: mais do que humanizar empresas, precisamos assumir o compromisso de humanizar mercados.

Publicado: Revista Empreendedor – Maio/2014