O que podemos aprender com o futebol

Cerca de 2000 livros são publicados, anualmente sobre o tema da liderança. Alguns investigam o estilo de famosos da modernidade, como Bill Gates, Sam Walton, Steve Jobs, Jack Welch. Outros apelam para épicos do tipo Alexandre, o Grande, Napoleão, Churchill, Gandhi e até religiosos, a começar por Moisés e São Paulo. Liderança sempre foi assunto intrigante. Já ocupava as mentes iluminadas de Platão e Voltaire.

A era industrial, com suas grandes corporações, começou a demandar líderes capazes de gerenciar pessoas e processos. A primeira pesquisa estrutural, a Teoria dos Traços, foi feita em 1920. O estudo tentava mapear características comuns de líderes eficientes. Para isso, eles eram medidos e pesados e passavam por vários testes, mas ninguém conseguiu  identificar o que os analisados tinham em comum. Ser alto ou baixo, gordo ou magro, nada nas características físicas explicava o líder eficiente. É claro que a Teoria dos Traços não deu em nada.

Na década de 40, impulsionada pelo avanço da economia norte-americana, surgiu a Teoria dos Estilos. Nessa época, Max Weber observava os efeitos da liderança burocrática, da liderança carismática e da liderança democrática sobre os resultados. Franklin Roosevelt governava os Estados Unidos e imprimia um estilo mais aberto e democrático. Tudo caiu por terra em razão da Guerra Fria e o autoritarismo voltou a imperar.

Diante das inúmeras dúvidas do que faz um líder ser líder, na década de 60 foi delineada a Teoria da Contingência, na seguinte linha: “o líder e suas circunstâncias”. É quando surge o conceito de liderança situacional, que decide e age de acordo com determinada situação. Mas isso só fez aumentar a confusão, uma vez que existem inúmeras contingências e infinitas variedades de liderança.

 

Exercício imprescindível

O fato é que o líder é uma peça chave no mundo dos negócios e na evolução da humanidade. Seja o guerreiro Átila ou o santo de Assis. O mito do herói solitário só existe nos livros de aventuras e nos filmes hollywoodianos. Sim, quem pintou o teto da Capela Sistina foi Michelangelo, mas com a participação de treze outros líderes e cerca de 200 colaboradores.  Da mesma forma, quem criou o primeiro desenho animado de longa-metragem, o premiado Branca de Neve e os Sete Anões, foi Walt Disney e mais 750 pessoas inspiradas por ele e comandadas por outros líderes. E o grande Thomas Edison inventou, sim, a lâmpada, com mais 300 pessoas.

Em suma: os negócios necessitam de líderes e equipes. Aliás, duas palavras que andam juntas como o café com leite ou o arroz com feijão.

E aí vale lembrar John Doerr, o lendário investidor do Vale do Silício que lançou o Lotus, a Compaq e a Netscape: “no mundo de hoje, há uma abundância de tecnologia, de empresários, de dinheiro, de capital para empreendimentos. O que anda escasso são grandes equipes”. Acrescento: e líderes! Pois não existem grandes equipes sem grandes líderes.

 

À parte as teorias

 

E onde o futebol entra nessa história? É que na incessante busca de compreender a magia da liderança, o futebol, o esporte mais popular do mundo, sempre foi uma referência. Seja o presidente do clube, seja o técnico do time ou mesmo um capitão de equipe, muitos são os exemplos daqueles que souberam virar o jogo. Tempos atrás, Wanderley Luxemburgo foi o palestrante mais bem remunerado e requisitado nos ambientes corporativos, a despeito de especialistas acadêmicos e estudiosos que se dedicam ao tema.

Nem toda analogia entre o futebol e empresas procede. Mas selecionei algumas que, se praticadas, fazem mesmo a diferença no exercício da liderança.

1)   Primeiro o homem, depois o jogador.

A frase é do Marechal da Vitória, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira em duas copas do mundo. Ela traz uma lição importante: antes do cargo ou da função, ou mesmo da tarefa e do desempenho, vem a pessoa. Quando o líder olha mais para o cargo do que para a pessoa, ele tende a tratar o sujeito como objeto. Tanto é que, na ausência de resultado, ele se desfaz da pessoa, mas mantém o cargo.

2)   Há grandes jogadores que enxergam a bola, mas o verdadeiro craque é aquele que, além da bola, enxerga o campo.

Essa é do Di Stéfano, um dos maiores jogadores e treinadores de todos os tempos. Enxergar o campo é ter a visão do todo, ou visão sistêmica, como alguns teóricos preferem. Compreender a empresa e o negócio, compreender os processos e as pessoas, compreender os resultados e os desempenhos. Esse olhar de amplitude faz parte do bom exercício de liderança, das correlações e conexões de que o líder é capaz.

3)   Que o seu lugar de trabalho seja o compromisso e também a causa.

Essa frase, inspirada em Peter Block, lembra que o futebol acontece no lugar onde estão o time e a torcida. É ali que se encontram o espetáculo, a vibração, a energia, os resultados. Todo o resto é política e burocracia, que eventualmente ajudam, na maior parte das vezes atrapalham. Também no mundo empresarial existem a empresa e o negócio. E a relação segue na mesma linha. O negócio é onde está o cliente, a satisfação, a recompensa. Todo o resto é controle, a parte que cabe à empresa.

4)   Mais importante do que fazer o resultado é cuidar de quem faz o resultado.

No futebol não se fixa o placar antes do jogo. Não se decide de antemão ganhar de 3 a zero do adversário. Pode-se fazer palpites, mas isso é para os apostadores. Os líderes estão de olho em quem faz o resultado: os atletas. E não é pouco o cuidado para com eles. O técnico é figura-chave, atua como treinador, educador, organizador, estrategista. Acompanha, orienta e realiza o ajuste de rotas. Mas não faz tudo sozinho. Conta com o assistente técnico, que o apoia. E também com o preparador físico voltado à performance de cada jogador. Seu papel é ampliar ainda mais a capacidade de velocidade, de resistência, de força, de flexibilidade de cada atleta.

A comissão técnica é formada por especialistas, entre os quais nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, odontólogos, massagistas e médicos. Todos voltados para quem faz o resultado.

No campo e na hora do jogo, o capitão do time é fundamental.  Exerce influência para que a equipe mantenha o equilíbrio, se integre e permaneça motivada ao longo de toda a partida.

 

O que vale, de fato

 

Sim, o que vale é bola na rede como indicador de desempenho de um jogo, decorrente de todos os cuidados preliminares, durante e depois da partida. Vale ainda mais a taça! Sinal de que a liderança soube transformar a técnica e a estratégia em uma cultura de equipe voltada para o alto desempenho permanente. Durante largos períodos, os campeonatos. E com aprendizado contínuo. Para o líder e seus liderados!

Publicado: Revista Empreendedor – Junho/2014