O grande trunfo no jogo da sucessão.

Artigo publicado na Revista Empreendedor

Fev/2015

 

A história é muito conhecida: o principal líder da empresa resolve “passar o bastão”. Está na idade de se aposentar e os novos desafios exigem alguém mais novo à frente do negócio. A primeira busca é feita na própria empresa, mas os candidatos internos, aos olhos do velho pioneiro, não possuem as habilidades necessárias para o que terão de enfrentar. Decide, então, procurar por alguém de fora, um astro à sua altura. Uma pessoa com real capacidade de substituir o líder carismático e obstinado que, por tantos anos, regeu a empresa com a batuta em mãos.

Encontrado, finalmente, a princípio o sucessor traz e inspira um novo alento. Disposto e arrojado, consegue ganhar algumas partidas. Isso anima a turma a ponto de alguns elogiarem sua eficácia. Mesmo assim, reina uma apreensão. Com todos os prós e contras, a equipe estava acostumada com o estilo anterior. O novo, advindo de outra cultura, traz consigo modelos e valores alienígenas.

Por essas e outras, vagarosamente, o brilho do astro começa a se apagar. Todos os que estavam ligados a seu antecessor passam a vivenciar um precoce saudosismo. O velho líder, por sua vez, já sente os efeitos da crise de abstinência do poder. Não estava pronto para abrir mão do controle da empresa que construiu graças ao trabalho de uma vida inteira. Pode parecer loucura que alguém que tenha saído em busca de um sucessor, em seguida passe a boicotar o que elegeu. Mas é o que geralmente ocorre, por mais que seja difícil imaginar. As coisas do poder são, mesmo, insanas.

Aos poucos, o novato entronizado começa a perder a força. Paralisa-se diante de uma encruzilhada: se fracassar em suas decisões e ações, seus dias estarão contados por baixo desempenho; se for bem sucedido e apresentar bons resultados, ofuscará o velho líder e os seus dias também estarão contados.

Nada mais, nada menos do que o transcorrer do jogo da sucessão e seus lances rotineiros. Comuns. O tema sequer é novo. Tal dilema já era enfrentado, em tempos antigos, por reis e rainhas nos sistemas monárquicos e aristocráticos. Hoje está presente nas organizações, esses reinados modernos.

Como lidar com o dilema da sucessão?

A parte do rei

O rei precisa saber que passará por três fases. A primeira é, de certa forma, confortável. Um sentimento íntimo de dever cumprido e o alívio por se livrar das inevitáveis agruras da liderança. Esse bem-estar, no entanto, tem vida curta. Dura, no máximo alguns meses.

É quando surge a segunda fase, aquela em que o sucessor começa a desmantelar o reino com novas diretrizes e condutas. E cresce o desconforto e a resistência do rei, muitas vezes de forma inconsciente. Velhos súditos trazem-lhe notícias das incongruências do novo líder diante dos valores e das prioridades antes estabelecidos.

Note que, quase sempre, não se trata da qualidade das decisões tomadas pelo sucessor, mas dos valores e prioridades considerados distorcidos. Racionalmente, é claro, o velho líder admite a competência do escolhido, mas o dilema da sucessão não tem nada de racional. São os sentimentos que estão em jogo, dentre os quais a crise de identidade. Criador e criatura viveram uma simbiose, ao longo dos anos em que o fundador entregou seus dias à construção da obra. E isso persiste.  A empresa não pode viver sem ele, ele não pode viver sem a empresa. Ao mesmo tempo, ansioso por oferecer melhores resultados, o sucessor não mede esforços para renovar, reinventar, inovar e deixar a sua marca, agravando ainda mais sua relação com o antecessor.

Assim se inicia a terceira fase, que pode ser marcada por um conflito mais aberto e uma inevitável deterioração gradativa da relação entre ambos. Nesse momento, mesclada entre antigos súditos e novos contratados, a equipe se divide entre o comportamento do sucessor e o parecer do velho líder. Decisões, ações, desempenho entram numa espiral decrescente.

O jogo é do valete

Quem deve se responsabilizar por administrar o jogo da sucessão é o valete. Precisa reconhecer o dilema e buscar a melhor solução. Afinal, é ele que tem mais a perder.

Primeiramente, deve reconhecer que a sucessão traz consigo um dilema. E não restrito apenas aos aspectos racionais. Se for alguém ingênuo, poderá acreditar que a sucessão estará assegurada por produzir os melhores resultados. Assim, persistirá em sua agenda de mudanças, passando por cima dos aspectos emocionais envolvidos. Paradoxalmente, quando mais força fizer para melhorar o desempenho, mais resistência poderá sofrer do velho líder e dos seus súditos.

É possível que, antes de aceitar o cargo, o sucessor tenha se debruçado sobre a linha de produtos da empresa, seus clientes e concorrentes. É capaz de ter se empenhado em compreender a estrutura da empresa e as linhas de poder e influência. Mas, no jogo da sucessão, ele tem de guardar um trunfo importante: o aprendizado – profissional e pessoal – sobre o velho líder. Cabe a ele, o valete, construir o relacionamento com o rei. Vale lembrar, ainda, que o sucessor é uma pessoa de fora e, supostamente, não conhece em profundidade a história do antecessor e o passado do empreendimento.

É, portanto, recomendável que o sucessor construa a estratégia de transição com o velho líder. E que, uma vez feita essa transição, continue a manter uma comunicação regular com seu antecessor. Baseada, sobretudo, em uma agenda comum, sem permitir que o assoberbamento dos trabalhos impeça esses encontros. Decisões mais estratégicas deverão ser compartilhadas com o velho líder. Manter a aproximação e o diálogo passará, para toda a equipe, uma imagem de cumplicidade entre ambos. E evitará tanto a fragmentação dos colaboradores como a disputa entre a nova e a velha guarda.

O sucessor pode e deve, também, buscar aliados entre os súditos do velho líder, principalmente os formadores de opinião. Assim, o novo líder demonstrará respeito e aceitação quanto às ideias e propostas daqueles que seguem a linha de pensamento anterior.

Os desafios organizacionais deverão ser enfrentados, mas o jogo da sucessão costuma ser travado na delicada esfera das questões humanas, ligadas ao poder e à identidade. Será sábio o valete que pensar no jogo por inteiro. Como herdeiro da criatura, deve agora honrar o criador.