Arrume a casa, antes que caia!

Artigo publicado na Revista Empreendedor
Jan/2015

O que está acontecendo? Converse com qualquer líder, empresário ou executivo, e vai descobrir que, entre eles, existe um dilema comum: a dificuldade de formar uma boa equipe de trabalho. “Não querem saber de mais nada”, dirão alguns, com referência aos mais jovens que, por conta de algumas peculiaridades como a vocação digital e a volatilidade nas relações, são denominados de “geração Y”. “Eles não se fixam nos empregos nem nas relações amorosas”, poderão comentar, comparando a carreira profissional aos relacionamentos.

De fato, a “geração Y”, bem informada e ciente de outras possibilidades, é mais resistente e se esquiva diante de um modelo de trabalho que ainda carrega os ranços da era industrial. Mas, noves fora este detalhe, não é novidade que sejam encontrados percalços para formar uma boa equipe de trabalho. Há muito tempo que os líderes se ressentem do problema.  Algo em comum permeia as gerações, mas agora torna-se aviltante: a ausência de significado no trabalho.

A anomia, nome que se dá para tal fenômeno, era até tolerável nas empresas, nos tempos em que a principal alternativa era o emprego com carteira assinada. Tolerável, mas com uma contrapartida ingrata, feita de comportamentos automáticos e ausência de iniciativa. A “geração Y” torna transparente a anomia, pois tem a sorte de contar com outras opções, seja o empreendimento próprio, o trabalho por projeto ou qualquer relação isenta de carteira assinada, o que implica maior autonomia.

O dilema, portanto, é antigo. Mas os líderes, agora, têm muito mais dificuldade de lidar com isso. O desafio é bem maior. Tende, inclusive, a piorar. E a única solução é fazer da empresa uma produtora de significado. Trata-se além de tudo, de uma excelente oportunidade para se sobressair no mercado e produzir riquezas.

O trabalho com significado

 

Na era industrial, inventaram a descrição de cargos e funções. Uma maneira lógica de organizar o trabalho. Mas que trouxe, em contrapartida, a figura do tarefeiro, aquele que é movido, diariamente, por uma lista de coisas a fazer. E, para a sua triste sina, nenhum item se altera nessa relação com o passar do tempo. E o que ele faz é percorrer um a um, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano. É claro que ele é funcional, talvez até seja considerado eficiente, mas não um ser humano integral. Impossibilitado de viver a sua vocação, a de ser humano, reagirá à sua maneira diante da sombria realidade. Inicialmente, pode ter sido tachado de subversivo, rótulo que costumam colar a alguém que joga contra o sistema. Vencido por punições e retaliações, e submetido à necessidade de sustento, o tarefeiro vira um robô cumpridor de obrigações. Passará o resto de seus dias, até aposentar-se, atuando no piloto automático.

A tarefa precisa ser colocada em um contexto mais amplo, o do trabalho. E o trabalho precisa ser significado. Antes de olhar para o cargo e as suas descrições, é necessário compreender para quem o trabalho se destina. E aí não se trata apenas de compreender os aspectos racionais e objetivos do trabalho mas, principalmente, os emocionais. Quer um exemplo? Um tijolo pode ser emocional. Como? Sim, um tijolo faz ambientes aconchegantes, lareiras, playgrounds, salas para ser e estar. Um tijolo faz o convívio, os momentos de intimidade, a diversão, o lazer, o prazer. Ora! Diante de tal sentido bem amplo, o trabalho se reveste de outra dimensão, muito além das tarefas. Tem significado e desperta, em quem o realiza, o gratificante sentimento de ser capaz de contribuir para algo que vai muito além dos fazimentos.

A empresa com significado

 

Assim, um conjunto de tarefas pode se transformar em um trabalho com significado. É possível, sim, superar a anomia. Porém o salto será mais fácil para quem fizer parte de um negócio que tenha significado.

Empresas existem aos montes por aí, mas são bem poucas aquelas que oferecem algum significado para quem nelas trabalha ou delas consome.  A maioria se resume a sobreviver como instituição meramente econômica, dedicada de maneira exclusiva a “maximizar o retorno para os seus acionistas”. Existe, mesmo, alguma graça em trabalhar para uma empresa ou dela consumir quando seu maior propósito é oferecer mais e mais lucros aos acionistas? Esse tipo de empresa não conversa com a mente e o coração das pessoas. Com alguma sorte, fala apenas aos bolsos (a remuneração, no caso dos funcionários; os preços e descontos, no caso dos consumidores). Mas sem criar nenhum vínculo emocional. Anomia ao cubo!

Mas uma empresa pode (e deve) ser produtora de significado. Tanto para quem nela trabalha, como para quem dela consome. E o exercício é semelhante ao que confere significado ao trabalho. Ou seja: é preciso olhar menos para o que se faz e mais para quem é feito. Ou seja, deixar de perguntar “o que ganhamos com isso” para se fixar em “o que oferecemos com isso”. Em suma: dedicar-se a contribuir, não em extrair.

Não é fácil refletir dessa maneira quando o único propósito é a busca da sobrevivência a todo custo. Tal pensamento é que precisa ser transformado. A essa transformação dá-se o nome de metanoia. Uma consciência não apenas necessária, mas imprescindível.

Uma economia com significado

 

A palavra economia vem de do grego “oikos”, casa, e “nomos”, costume ou lei. É a ciência que cuida dos costumes da casa. A casa em que todos nós moramos. E as relações internas que a caracterizam: entre as empresas, delas com o meio ambiente, com a natureza e a Mãe Terra. A nossa Casa. Onde cada um de nós oferece os seus préstimos, por meio do trabalho.

Não existe separação entre a natureza e os seres humanos. Não somos seres funcionais e utilitários. A velha economia errou nessa medida e fez dos seres humanos apenas meios para fins lucrativos. Trocou o humano pelo econômico. Com isso, desarranjou a Casa, desarrumou as relações dentro dela, desestruturou seus alicerces.

A Casa precisa ser reerguida, a partir dos pilares.  A nova economia é a reconstrução da Casa. Aqui também vale a indagação: para quem? Para quem nos deixou esse legado e tal incumbência. Podemos fazer isso por meio dos negócios. Podemos fazer isso com empresas que sejam produtoras de significado. Podemos fazer isso por meio do trabalho. A nova economia, que representa a reconstrução da Casa é, por si só, o Grande Significado. É ela que colocará luz nos negócios e na nova empresa. No trabalho e em cada tarefa.

O desafio é grandioso, mas os líderes são poucos. É deles que a Casa necessita. Alie-se, na certeza de que também a sua vida ganhará em significado, tornando-se mais ampla e pródiga.