Siga em frente.

Saber se relacionar é mesmo uma arte! Elaborada aos poucos, a partir de muitas questões.  Quando ceder? Quando não afrouxar? Quando exercer a autoridade? Quando distender o poder? Como lidar com os conflitos recorrentes? O que fazer se a empresa padece por conta de relações conturbadas entre sócios, entre líderes e subordinados, entre membros de uma mesma equipe? Até que ponto um negócio consegue suportar os custos de relações deterioradas?

O mundo não é um mar de rosas. Longe disso. É mesmo um lugar de conflitos e o nosso maior desafio é saber lidar com eles e com o que os precedem: as relações. O fato é que negócios são relacionamentos, liderança é relacionamento, casamento é relacionamento, a vida é relacionamento. Somos seres relacionais e o conflito faz parte do pacote.

Nas empresas, é reconhecido que a qualidade das relações tem tudo a ver, diretamente, com a qualidade dos resultados. A teoria da administração não ignorou esse tema e aprendeu bastante com outras ciências, como a psicologia e a filosofia. Muito se investiu para melhorar o diálogo nas empresas e na administração de conflitos. Autores importantes ofereceram ensinamentos a respeito, como Chris Argyris, Daniel Goleman e Margaret Wheatley, apenas para citar alguns. Diante de tantos conceitos valiosos e práticas elaboradas, tenho uma recomendação simples: siga em frente!

Sim, a estupidez e a maldade humanas existem, como negar? Mas não superam a força da bondade humana. E, nesse embate, raras são as pessoas verdadeiramente más. Mas, apesar delas, é preciso apostar na generosidade e seguir em frente.

É claro que nos desapontamos, uma vez ou outra. Quem está livre das decepções? Só que, na mesma medida, também desapontamos os outros. Então o que fazer? Se não nos inquietarmos quando desapontamos, é provável que lidemos melhor com as situações em que somos desapontados. Por isso, não nos incomodemos muito com as nossas falhas, elas são humanas. E isso vale também para as falhas dos outros. Quem é severo consigo, também é severo com os outros. Por isso, melhor é aliviar a carga que colocamos sobre nossos próprios ombros. Assim, deixaremos de sobrecarregar ombros alheios. Portanto, siga em frente!

Um fato costuma ter várias versões. Os conflitos não são gerados por fatos em si, mas por essas fantasiosas versões. Trate de conferir por si. Diante de um mesmo território, muitos são os mapas. Cada cartógrafo acredita que seu mapa é o mais correto. Mas mapas são apenas tentativas de traduzir um território. O problema é que, para muitos, os mapas representam a verdade, não o território. E as pessoas agem e reagem de acordo com os mapas, não com o território. Por isso, conflitos à vista! O que fazer? Elucidar e elucidar-se sempre que possível. Mas não pense que sempre você vai conseguir isso. Se não for possível, siga em frente!

O que fazer com as críticas e com o que os outros dizem? Você não acabará com a fofoca.  Se tentar, vai fortalece-la ainda mais. Antes, compreenda que a maioria das informações não está do lado de fora, mas sim do lado de dentro. Essa é uma das razões pelas quais os mapas se distanciam dos territórios. Boa parte do que se critica e do disse-me-disse não passa de projeções de desarranjos pessoais. Alguns remontam a outras épocas, por exemplo, traumas de infância. A vida é um espelho e inconscientemente projetamos as nossas mazelas. Não vale a pena perder tempo tentando corrigir disfunções que se originam no passado e sobre as quais você não tem o menor controle. Antes, ouça com aceitação, compreensão e… siga em frente. Sem nenhum julgamento.

Por vezes achamos a nossa mensagem muito objetiva para não ser entendida de bate-pronto. Mas não é assim que as mensagens funcionam. Elas caminham lentamente e, no percurso, são contaminadas por intrusos de todos os tipos. É muito difícil que cheguem a seu destino com a mesma qualidade da origem. Muitas são as pedras no caminho para colocar as mensagens à prova. Os obstáculos não são apenas defeitos da qualidade das mensagens, mas dos ruídos que povoam os ouvidos de quem as recebe. Cada um escuta conforme seu ângulo de audição. As relações humanas padecem da ilusão de ótica e de acústica. Diante desse dilema, só lhe resta seguir em frente.

Nem toda oposição é injusta. Algumas são contributivas. Mostram que a outra parte está comprometida e, por isso, quer fazer valer sua posição a qualquer custo. Vale recuar e assimilar diferentes pontos de vista. E, tão logo possa, prossiga. Outras contraposições são, mesmo, adversas e inflexíveis. Interferem negativamente no processo. O que fazer? Siga em frente!

Lembre-se que também existe a vaidade daqueles que não abrem mão de suas posições. E que jamais admitem estar errados, não se interessam por opiniões alheias, acham que não têm mais nada a aprender, são donos da verdade.  Vaidade das vaidades, e se não nos livramos delas, é melhor seguir em frente.

Diante dos conflitos, em certas circunstâncias o melhor é não intervir de imediato. Muitas vezes, vale entregar-se a uma noite de sono e deixar que a poeira baixe. Então, uma boa conversa pode ser a solução. Depois, qualquer que seja a conclusão, siga em frente! Há quem fique remoendo e ruminando dias sem fim as palavras que feriram seu ego. Dê de ombros e siga em frente!

É sempre bom lembrar que “seguir em frente” nada tem a ver com “dar as costas”. Não se trata de ignorar ou de invalidar determinados comportamentos, como os que foram citados aqui. O desafio é evitar que eles retenham você, fazendo com que fique dando voltas ao redor de velhos problemas de relacionamentos.

Também é preciso aceitar o fato, nem sempre agradável, de que as separações fazem parte da vida. São até inevitáveis, em algumas situações.  É a única forma de sanear o problema. A vida é feita de encontros, mas há tantos desencontros pela vida, como dizia o poeta. O importante é que nada tenha sido em vão. A hora da partida faz parte da existência, portanto, continue. Um reencontro pode se dar em uma nova alegria. Portanto, siga em frente! Sem olhar para trás.

Publicado Revista Empreendedor: Ago/2014