
Já não tenho disposição para participar ativamente da festa, mas continuo me divertindo quando me deparo com os blocos que invadem as avenidas da cidade.
Podemos achar que o Carnaval é fuga. Talvez seja. Mas é também revelação.
Durante alguns dias, o país desacelera suas máscaras sociais e veste outras, quem sabe mais verdadeiras. O executivo vira folião, a professora, passista, o tímido solta a voz e o burocrata sacoleja sem reservas.
Algo adormecido acorda.
O Carnaval não cria uma nova identidade. Suspende momentaneamente as amarras da velha, que muitos já não suportam carregar e resolvem, nesses dias de alforria, dar uma folga a elas. É como se a vida dissesse: “lembra quem você era antes de ficar sério (ou séria) demais?”.
A fantasia funciona como permissão. Permissão para sentir, pertencer, celebrar o simples fato de estar com vida. Talvez seja por isso que essa festa incomode tanto alguns olhares mais apressados. Expõe uma verdade desconfortável: as pessoas não querem apenas sobreviver. Querem pulsar. “Gente é para brilhar”, como diz o verso da canção do Caetano.
Gente quer ritmo, cor, comunidade, significado. Gente quer chama. E, toda vez que a chama aparece, a vida vira folia. O que o Carnaval faz em quatro dias, eu acredito que a educação, a liderança e o propósito deveriam fazer o ano inteiro. Despertar gentes.
Quando uma escola, uma empresa ou uma comunidade perdem o brilho nos olhos, não precisam só de metas. Precisam de tambor. O samba na avenida ensina algo que muitos planejamentosesquecem: ninguém desfila sozinho. Cada bateria é um coletivo, cada escola é um organismo vivo, cada passo depende do outro. O espetáculo nasce da harmonia.
É a mesma lógica das relações humanas, da liderança consciente, daquilo que gosto de chamar de nobreza: eu brilho para que o outro brilhe também.
Sugiro um novo olhar a quem não aprecia esses dias: o de enxergar o Carnaval como um ensaio popular de humanidade. Um lembrete anual de que somos feitos de corpo, alma, ritmo e vínculo. “Vida, doce mistério”, é o verso que dá continuidade à canção. A pergunta que fica é simples e profunda: se somos capazes de tanta energia, tanta criatividade e tanta união em fevereiro, por que aceitar um ano inteiro de apatia?
Quem sabe, depois de tantos carnavais, possamos viver com mais autenticidade e sentir que estamos desfilando a nossa própria história – com propósito, gente boa ao lado e o coração batendo no compasso certo.
Como um bom samba.