Carta de um aprendiz

Amabilíssimo mestre

Gostaria de expressar alguns sentimentos, algo de que sinto falta em nossas interações. A começar pelo exercício que nos une, o da aprendizagem.

Gosto de aprender. Mas não como papagaio, repetindo o que não entende, ou como quem copia, repete e engole palavras sem sabor. Quero aprender como quem descobre um rio escondido no meio da mata ou um fruto novo na beira do caminho e o prova com curiosidade. Quero molhar meus pés, escorregar nas pedras, beber água por conta própria.

Nada de tratar-me como uma caixa vazia à espera de ser preenchida. Não sou um depósito de fórmulas nem um arquivo para suas verdades. Sou chama – pequena talvez, mas viva. E só peço lenha, vento, desafio, para arder por conta própria. Se oferecer condições para me incandescer, eu viro fogueira.

Permita que eu erre, tateie no escuro. Não me dê todas as respostas. Faça com que eu pergunte melhor. Ofereça-me enigmas, mistérios, provocações.

Não me diga por onde ir. Mostre-me o caminho. De preferência, no próprio caminho. Diga apenas que existem trilhas e deixe que eu escolha a minha. Quero ter o gosto de juntar as peças, de unir os pontos e o orgulho de reconhecer: “caramba! eu mesmo entendi!”

Sei que não sou nem menos nem mais inteligente do que outras pessoas. A diferença é que algumas já avançaram mais, outras se perdem nas curvas ou tropeçam. Mas tropeçar é também um jeito de avançar.

Não preciso de uma escada pronta. Quero ter degraus para experimentar, confiança para subir, desafios para galgar. Preciso, sobretudo, que você acredite em mim – mesmo quando eu duvido de mim. Preciso da sua fé para sustentar a minha.

Mestre, não me faça apenas repetir o que você já sabe. Ajude-me a descobrir o que nem você imagina. Aprender, para mim, não é herdar pensamentos prontos, mas parir ideias novas.

Se me der essa chance, prometo uma coisa: aprenderei não só para mim, mas também para contribuir a que outros aprendam. Afinal, cada aprendiz, cedo ou tarde vira mestre de alguém. E, quando chegar esse dia, quero ser um mestre certo de que toda chama pode virar labareda.

Com apreço,

Eterno Aprendiz

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