A crise está onde, mesmo?

Cena 1

 

Antes de ir para o trabalho, o líder faz a habitual leitura do noticiário. Assim como para muitos empresários ou executivos, manter-se informado faz parte de sua função, que é dirigir empresa e negócios. Tem de saber a quantas andam a economia e os indicadores macroeconômicos, entre os quais o PIB (Produto Interno Bruto), que é o mais influente de todos.

O PIB representa a soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços finais produzidos no país durante determinado período de tempo. Embora só meça a economia formal e tangível, deixando todo o restante – nada desprezível – de fora, é considerado o indicador mais utilizado para quantificar a atividade econômica de um país.

No caso do Brasil, com um território de dimensão continental, há mais um agravante: o crescimento do PIB nacional é muito diferente daquele dos PIBs regionais Portanto, a média sempre considera tudo o que existe para gerar algo que não existe.

Mas questionar o PIB não importa tanto. Ele, de fato, influencia.  Por isso, o que conta mais: a informação ou a percepção?

Cena 2

 

A relação com o cliente é rudimentar, naquele estabelecimento comercial. Parece que os funcionários só estão ali por obrigação. Não se envolvem com os anseios do cliente que, face a tamanho descuido, se limita a fazer a compra e pagar. Só Deus sabe se voltará um dia.  Vai-se embora sem nenhum sentimento de satisfação, menos ainda é a vontade de fidelização. Uma transação comercial, literalmente transitória. Vínculo ou saudade? Zero!

A preocupação dos funcionários é com a escala da jornada de trabalho e a contabilidade das folgas: quem vai ser poupado no próximo final de semana, quem vai sair mais cedo, quem vai descansar etc. Então, a vida é algo que acontece lá fora. E o trabalho é algo que acontece enquanto não se está vivendo.

A partir de tais pensamentos e sentimentos, é muito difícil engajar-se com o cliente e suas necessidades. Nada de olhar nos olhos, nada de chamá-lo pelo nome, nada de atenção, muito menos de interesse. Uma relação fria e distante.

É fato que a satisfação do cliente tem relação direta com a satisfação do funcionário.

Cena 3

 

O dono do estabelecimento, por acaso, é o mesmo que habitualmente mantem-se informado sobre os movimentos da economia. Vive incomodado com a carga tributária e os impostos. Ocupa-se com as manhas e artimanhas para livrar-se do fisco. Não acredita que o seu negócio seja capaz de sobreviver arcando com tantas obrigações.

Amaldiçoa a taxa de juros e a política de crédito. Para ele, tanto faz a independência ou não do Banco Central, desde que as taxas baixem. Também se preocupa com a taxa de câmbio e o aumento do dólar, embora o seu negócio não seja muito dependente de produtos importados. Acha que o governo está sempre armando alguma para pegar o empresariado no contrapé.

Afinal, o que conta mais: a informação ou a percepção? Esta é a pergunta feita ao final da cena 1.

No caso desse líder, a percepção é influenciada pela informação. Ele constrói uma imagem de mundo decorrente das informações que obtêm e de como as processa em sua tela mental. E, lamentavelmente, essa imagem é de um mundo precário, escasso, ameaçador.

É a partir de tais percepções que, ao chegar à empresa, o líder toma decisões, em geral voltadas à precaução da empresa, à proteção do negócio, à preservação do patrimônio. Arma um jogo não para ganhar, mas sim evitar perdas. Um jogo na retranca, fechado, preso. Pensa mais em bons zagueiros do que em bons artilheiros. Tudo para não sofrer derrotas. Com um cenário tão desolador, a vitória é muito remota. Improvável.

Na sala de reunião, com seus principais líderes, o chefe determina cortes de custos e despesas, substituição de mão-de-obra e de material por alternativas mais baratas. As estratégias mais sofisticadas se concentram em “fechar as torneiras”, incluindo os investimentos.

É importante notar que as decisões dele não decorrem diretamente das informações obtidas, mas das percepções e histórias influenciadas pelo que ele absorve e transmite a seus colaboradores diretos.

Enquanto as decisões são tomadas pela direção, a uma parede de distância, na sala ao lado acontece a cena 2.

Cena 4

 

Como de hábito, o líder principal faz a leitura do noticiário. Só para confirmar o que já sabe. Acompanhou os últimos telejornais da noite anterior e não há nenhuma novidade. Afinal, ele não consegue ir para a cama sem antes comprovar o que certamente vai ler na manhã seguinte. Não por acaso, dorme entre sobressaltos. O desassossego vale a pena. Como todos falam a mesma língua, a realidade – sem dúvida – é aquela.  A crise está aí! Só não vê quem não quer ou é desinformado.

No caso dele, basta olhar para o seu próprio negócio e ver o quanto está à deriva, com os clientes cada vez mais distantes e funcionários desmotivados.

O cenário é ruim, mas ele sente um certo conforto: sabe que, como tantos outros de seus pares, é uma vítima da crise que se instalou no país. Então, só resta esperar. Do mesmo jeito que uma poça d´água, espera pela chuva e aposta na vontade de São Pedro.

No meio tempo, nada como reforçar o velho hábito: o de se manter informado, sempre do mesmo jeito, para ratificar a mesma e desgastada percepção. E justificar sua inércia.

Onde está a crise?

Para saber e reconfirmar, retorne às cenas anteriores. Verá como se repetem, à exaustão. Sem novidades nem esperanças. Como um inexorável feitiço do tempo.

Qual a sua escolha?