No mundo da lua

“Quando o sábio aponta a lua, o tolo olha para o dedo”, diz um provérbio budista. Provérbios, desses que atravessam os tempos, guardam ensinamentos, sejam da tradição oriental ou ocidental.

Podemos aprender com esse que, por conta daquele que indica –o dedo –, provavelmente perca de vista a direção – a lua.

Perder de vista a direção, o norte, o propósito para se fixar no indicador ou na meta acontece com muita frequência no mundo das empresas.

Quando o medo se achega, postergam-se os planos que exigem amadurecimento e retorno a médio e longo prazos e todas as preocupações se voltam para o aqui e o agora. Assim, redundam em decisões e ações voltadas para o curto prazo, quando não para o imediatismo.

É o caixa antes do lucro, o custo antes da receita, o lucro antes da riqueza, e assim por diante, sempre na incontornável luta pela sobrevivência. Remedeiam-se os problemas conjunturais, mas não se evolui nas questões estruturais, aquelas que poderiam, de fato, trazer uma condição diferente e superior para a geração de riquezas.

A sina de olhar para o dedo e ignorar a lua não é nova. Acontece com muita frequência e basta um susto. Fatal, na história, é justamente perder a lua de vista. E o que nos faz sonhar, admirar, imaginar é a lua. Indicadores e metas não causam esse efeito. Alguém poderia dizer que as metas são alcançáveis, mas não a lua. Por que então ocupar-se dela?

Porque a lua dá a direção, o sentido, o caminho, a inspiração. Não se trata de alcançá-la nem de apoderar-se dela, mas de tê-la como referência para não se perder. É como uma estrela-guia a nos orientar e dar sentido à nossa existência. Sem a lua, perdemos a poesia e ficamos somente com a enfadonha rotina de ficar olhando para o dedo.

A lua é inalcançável, assim como a utopia. Ambas estão distantes, para além do horizonte. Então lembrei-me do que dizia o escritor uruguaio Eduardo Galeano, para quem “… a utopia está lá no horizonte: me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Algo precisa fazer a consciência se expandir, a alma se libertar e a mente sonhar sonhos férteis. Olhar para o próprio dedo não cria tal motivação. Melhor é apontar a lua. A lua é dos enamorados, dos poetas, dos sonhadores. Nada mais belo e virtuoso do que estar em tão inspiradora companhia!

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Sandra Campos
Sandra Campos
3 meses atrás

TEXTO PRIMOROSO!! Como o autor…

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