
São Paulo não é apenas uma cidade para mim. Caipira do interior, vim para cá adolescente e nela fiz morada. A partir daí, tornou-se um território afetivo, feito de marcos que me formaram por dentro.
O centro antigo foi a minha primeira paixão. No Largo de São Francisco, à sombra da igreja que lhe dá nome, aprendi cedo que a cidade também reza. Ali, diante das pedras e da presença serena do santo, São Paulo revela uma dimensão menos apressada, quase recolhida. Sempre que passo por lá, sinto que a cidade me convida a um breve alinhamento interior, como quem lembra que, antes do pensamento e da ação, existe o espírito.
Na esquina da avenida Ipiranga com a São João, São Paulo se fez juventude. Foi ali – e por aí – que vivi o tempo da mocidade, quando o mundo parecia caber em uma esquina e o coração pulsava no ritmo da cidade. Caetano a eternizou em Sampa, mas antes disso ela já era canto dentro de mim. Uma mistura de sonho, pressa e descobertas. “São Paulo que amanhece trabalhando…” como dizia a canção de Billy Blanco.
A Aclimação foi o bairro que me acolheu. O seu conhecido parque me apresentou uma São Paulo bucólica e que também respira. Entre caminhadas sem destino e o canto dos passarinhos, encontrei pausas raras, quase sagradas. Ali, a cidade baixa o tom, convida ao passo lento e lembra que nem tudo precisa correr – algumas coisas
precisam amadurecer.
No Pateo do Collegio, São Paulo revela a sua origem. Pedra fundamental, nascimento, começo. Sempre que retorno, piso não apenas no chão, mas no tempo. É impossível não reconhecer que tudo o que somos hoje – caos, potência, contradição – brotou daquele pequeno núcleo de história.
E então há a Avenida Paulista. Opulenta, vertical, pulsante. Símbolo de uma cidade que produz, inventa, negocia, ousa e se manifesta. Sua arquitetura e sua força econômica não escondem o que ela é de fato: um organismo vivo, onde diferentes mundos se cruzam a cada semáforo, a cada esquina, a cada calçada.
Esses lugares não são apenas cartões-postais. São capítulos da minha própria história. São Paulo me atravessou enquanto eu a atravessava. Penso que é isso que faz dela essa cidade única: não se deixa habitar – ela nos constrói.
Parabéns São Paulo, por existir em tantos lugares e, por existir, sobretudo, dentro de mim.