Afeto sim, afago não

Questões emocionais e de relacionamento fazem parte da alma de uma empresa. Não podem ser ignoradas. E, delas, ninguém sai ileso. Mexem com o ânimo das pessoas e afetam diretamente a qualidade do trabalho. É preciso muito autocontrole e autodomínio para mantê-las afastadas das outras áreas da vida. E aí? Como lidar com esse universo de emoções, em uma empresa que, em geral, está pressionada por desafios do negócio, dos resultados, das exigências dos clientes?

 

É papel do líder elevar a alma da empresa. Essa é uma das atribuições que torna alguém digno da liderança. É algo que vai muito além da otimização dos recursos, prática bastante comum dos chefes. Pois bem, elevar a alma da empresa significa impulsionar o desejo das pessoas. Só um propósito é capaz disso.

 

As questões emocionais e de relacionamento são dúbias. Expressam sentimentos. Mas, ao lidar com algo tão delicado, o líder pode exagerar na medida e pegar o caminho errado. Pensando em promover a alma da empresa, ele acaba patrocinando a empresa sensível, dengosa feita de pessoas mimadas. Isso acontece quando ele tenta suprir a carência, em vez de promover o desejo. No intuito de exaltar o criador, acaba por enaltecer a criatura.

 

Só que ao dar tanto espaço à criatura, alimenta a dor e o sofrimento. Gera, então, o ambiente das lamúrias e do chororô. Nessa hora, o propósito sai de cena. A criatura carente está em busca de proteção, resguardo, atenção. O mundo ao seu redor lhe deve algo, por isso cobra e exige, seja  com aflição ou mesmo com agressividade.

 

O líder que embarcar na canoa furada das carências não terá tempo para mais nada. São infinitas. Não é possível satisfazê-las, porque têm uma capacidade imensa de multiplicar-se. Daí, vale repetir, tratar das carências é enaltecer a criatura que mora dentro de cada um de nós. Promover o desejo é evocar o criador, a essência, aquela que está voltada para fora, para o serviço, para a contribuição.

 

Afeto sim, faz parte de uma empresa mais humana. Afagos, no entanto, contribuem para promover distorções do entendimento do que seja uma empresa com alma. Saiba muito bem qual é a diferença e não caia na armadilha!

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Zé Luiz
Zé Luiz
3 anos atrás

Roberto, a forma como você abordou o tema foi tão cristalina, passei por isso, mas não tinha conseguido me expressar assim. Muito bom.
Me faltou um estado de consciência melhor, ou vc ter escrito isso na época, ajudaria a todos na empresa.

Muito criaturas é pouco criadores.

Obrigado mestre.

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