Entre o mérito e o merecimento

O mérito – ou a meritocracia – goza de boa reputação na sociedade capitalista em que vivemos. “Faça isso e você ganha aquilo”, eis o seu maior mandamento. Na sequência, o “aquilo” começa a roubar a atenção que deveria manter-se no “isso”. Então, o “isso” vai perdendo o seu sentido e significado.

“Aquilo” é o mérito pela realização do “isso”. Como o “isso” vai perdendo a sua força, a motivação não advém mais dele, mas do “aquilo”. E haja valorização do “aquilo” para compensar a desvalorização do “isso”. Sem significado, o “isso” torna-se um fardo. É questão de tempo, mas logo não haverá mais nem “isso” nem “aquilo”.

Se bem entendido, o “isso” é o trabalho que precisa ser realizado e o “aquilo”, sempre um estímulo externo, é a recompensa por realizá-lo. O “isso” é o próprio trabalho cujo estímulo interno está no seu significado intrínseco. A armadilha sorrateira é que os estímulos externos tiram a força dos estímulos internos. A perda dessa energia motivacional intrínseca ao próprio trabalho traz enormes prejuízos, embora não sejam contabilizáveis e não constem diretamente nos balanços. Mas seus estragos estão lá, ainda que não escriturados.

Sempre estranhei os “vestibulinhos” que maltratam tanto os jovens estudantes. Diante da encruzilhada dos aprovados versus os reprovados, coloco-me no lugar desses últimos. Como se sentem, excluídos de um perfil definido sabe-se lá por quem e passam a pertencer ao rol dos derrotados? Certamente será um estigma que afetará a sua autoimagem para o resto da vida. Os que se veem inferiores tornam-se inferiores. Assim é a meritocracia.

Se queremos uma gestão humanizada, precisamos mudar a regra do mérito para o merecimento. O mérito depende do estímulo externo e sua moeda é a reciprocidade. Nem é um toma lá, dá cá. É mais um dá cá, toma lá. No merecimento, a moeda é a graça, um dom tanto natural quanto espiritual.

A reciprocidade diminui o tamanho da graça. O exercício da gestão humanizada é despertá-la e mantê-la viva.

Sendo assim, porque tantas empresas e líderes cometem o equívoco de substituir a graça pela reciprocidade?

Arrisco um primeiro palpite: eles não enxergam o ser humano como um organismo vivo, mas como um mecanismo. A gestão não-humanizada duvida que as pessoas farão o que precisa ser feito sem que haja algum tipo de recompensa. Por isso, utilizam artifícios de controle, manipulação, domesticação, em uma acentuada relação objeto.

A gestão humanizada, por sua vez, reconhece as gentes como organismos vivos que se interessam, têm curiosidade, gostam de aprender e se desenvolver, enfrentam desafios e fazem muitos “issos” sem necessidade nenhuma de “aquilos”, desde que sejam tratadas como sujeitos e enxerguem significado nos “issos”.

Saiba que não há nenhum artifício nisso, pois faz parte da própria natureza humana. As gentes acreditam de verdade que “não é porque fizemos que merecemos. É porque merecemos que temos de fazer”. Ponto!

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