
O mundo corporativo é tentador. Não apenas por prédios de vidro, bônus de fim de ano ou gráficos ascendentes nas apresentações de resultados. É tentador porque oferece uma promessa impossível: se tudo der certo, você será alguém. E, quase sem perceber, passamos a medir a vida pelo que cabe na planilha de Excel.
A dimensão econômica é relevante, sem dúvida. O dinheiro importa. Viabiliza sonhos, sustenta projetos, dá escala às ideias. O problema não está no dinheiro, mas na pressa com que ele se antecipa às outras dimensões da riqueza.
Quando a dimensão econômica corre na frente, a dimensão causal fica para trás. O cliente, que deveria ser causa, vira consequência.
Quando a econômica se impõe, a dimensão potencial também sofre. Quem produz a riqueza – as pessoas – passa a ser custo, recurso, número.
Face às distorções, algo sutil começa a acontecer: o ter cresce, enquanto o ser emagrece. Empresas prosperam do ponto de vista financeiro, enquanto empobrecem humanamente. Os resultados sobem, mas a vitalidade desce. O lucro aparece, embora o sentido rareie. Aos poucos, instala-se um tédio que nem o bônus ou a promoção resolvem.
Empresa é, antes de tudo, um habitat humano. Um dos poucos espaços da vida adulta em que pessoas diferentes se encontram todos os dias para aprender a conviver, decidir, errar, corrigir, cooperar e criar. Um lugar onde existe potência de vida e não pode ser reduzido a uma máquina de resultados.
Antes da riqueza econômica, da causal, da potencial, existe uma riqueza sutil e decisiva: a dimensão filosófica. Ela não lida com números, mas com razões e motivações. Não trata de meios, mas de intenções. É ela que responde à pergunta: para quê?
Essa ausência de sentido começa a ser questionada de forma mais explícita pelas novas gerações. A geração Z, em especial, já não entra nas empresas em busca de salário, cargo ou estabilidade. Ela busca coerência. Quer trabalhar em lugares onde a vida não precisa ser deixada do lado de fora. Procura propósito antes de plano de carreira, pertencimento antes de status e significado antes de ocupação.
A dimensão filosófica dá sentido à empresa e a transforma em um habitat humano. Considerada como tal, se torna um campo fértil de aprendizagem amorosa. Amorosa não no sentido romântico, ingênuo ou permissivo, mas no sentido profundo de quem aprende cuidando da vida que ali pulsa.
Não por acaso, empresários que apostaram seriamente na qualidade das relações, cuidando da cultura, da confiança e dignidade cotidiana, não empobreceram por isso. Ao contrário: prosperaram. Descobriram que relações bem cuidadas reduzem desperdícios invisíveis, ampliam a inteligência coletiva e gera um tipo de lucro mais resiliente, capaz de atravessar crises sem perder a alma.
Mais do que apenas responder ao mercado, o maior desafio da empresa de vanguarda é educar para a vida. Não apenas gerar valor econômico, mas formar pessoas capazes de sustentar esse valor ao longo do tempo.
No fim das contas, empresas que aprendem descobrem algo essencial: quando o ser cresce, o ter encontra o seu lugar. Deixam um legado que não se mede apenas em balanços, mas em vidas ampliadas. Contribuem, portanto, para um mundo melhor.