
O velho estava sozinho.
A mesa à sua frente guardava números, papéis, contas que não fechavam. Havia marcas de café, rabiscos, cheiro de cansaço no ar.
Ele passou a mão no rosto. Não era o trabalho que o cansava. Era a sensação de muito empenho e pouco desempenho.
– Não faz sentido… – disse, quase sem voz.
A porta se abriu devagar. O menino entrou. Parou por um instante, como quem havia escutado o murmúrio.
– Posso ficar?
O velho assentiu.
O menino sentou-se ao lado e não perguntou nada. Deixou que o velho desabafasse.
– Eu estou cansado… – disse. Cansado de fazer mais e mais, tentar mais e mais… e nada. Os resultados não acontecem. Só me resta reduzir as despesas.
Depois de uma pausa, o menino resolveu falar.
– Hoje eu vi uma coisa.
O velho escutava, mas ainda mexia nos papéis sobre a mesa.
– Tinha dois instrutores em uma academia. Um conduzia o treino com precisão. Série, repetição, tempo. Tudo certo.
O velho ainda remexia os papéis.
– O outro também fazia tudo certo. Mas não só isso.
O velho virou levemente o rosto. O menino respirou fundo, como quem retoma a cena.
– Ele olhava nos olhos das pessoas. Chamava pelo nome. Percebia quando alguém estava por um fio.
O velho deixou de mexer nos papéis.
– Um rapaz – continuou o menino – ia parar o exercício. Já não tinha força. O instrutor se aproximou. Não falou alto nem cobrou. Só ficou ao lado e disse baixinho “eu estou aqui”.
O velho começou a se interessar.
– O rapaz terminou a série. Mas não foi isso que me chamou a atenção. Foi o que veio depois.
– E o que veio depois? – perguntou o velho, agora curioso.
– Ele ficou. Não para treinar mais, mas para agradecer.
O velho respirou fundo.
– E eu fiquei olhando – disse o menino – não o treino, mas o que acontecia ao redor. As pessoas demoravam mais, se ajudavam mais e notei, no dia seguinte, que elas voltavam diferentes.
O velho agora permanecia inteiro na escuta.
– A academia não estava mais cheia, estava mais viva. Não era só gente treinando. Era gente se fortalecendo junto.
– Mas isso paga a conta? – perguntou o velho, com um cansaço honesto.
O menino observou os papéis sobre a mesa. Depois, olhou para o velho, que comentou:
– O que está doendo não é somente a conta que não fecha. É a baixa valorização do que fazemos.
O menino pegou um dos papéis.
– Aqui você anotou o que rendeu para a sua academia.
Virou a folha:
– Mas onde anotou o que rendeu para os alunos?
O velho não compreendeu. O menino continuou:
– A força que alguém encontrou porque esteve lá, o dia em que alguém não desistiu, outro que se superou, o aluno que resgatou a energia e a vontade de viver.
A respiração do velho mudou. Ficou mais lenta. Mais funda.
– Isso não cabe aqui – disse.
– Não cabe mesmo – respondeu o menino –, porque isso não se mede.
O velho ficou ali, quieto, refletindo.
– Mas e o negócio? – disse, de repente. – As metas… eu não posso me perder disso.
O menino levantou, caminhou devagar pela sala.
– Posso lhe perguntar uma coisa?
O velho assentiu.
– Quando foi a última vez que você viu sua equipe… viva?
O velho pensou. Em sua mente, vieram as reuniões, as cobranças, os prazos, os procedimentos. Mas não veio a resposta.
– Não sei… – disse.
O menino ouviu como quem já sabia a resposta. E falou:
– Às vezes, quando tudo vira meta, as pessoas vão se encaixando dentro dos números. E quando isso acontece, a energia diminui, a criatividade se esconde, a vontade vira obrigação. Mas hoje, naquela academia, não era só o aluno que saia diferente. O instrutor também saia diferente. Ele parecia mais inteiro. Como se aquilo que ele dava, voltasse mais forte na mesma hora.
E acrescentou:
– Metas funcionam quando estão a serviço de um propósito.
O velho inclinou levemente a cabeça e, ainda desconfiado, perguntou:
– Isso faz diferença no resultado?
– Faz. Quando alguém vive uma experiência de entrega verdadeira, algo muda por dentro. A pessoa volta mais aberta, mais conectada, mais disposta. E isso não fica só ali.
Olhando para o velho, arrematou:
– Transborda! Para o trabalho, para o cuidado, para a forma de resolver os problemas, para o jeito de se relacionar.
O velho respirou fundo:
– Então isso tudo não aumenta os custos do negócio?
– Não, isso tudo devolve energia para o negócio.
O velho ainda refletia, quando o menino sugeriu:
– Vou lhe mostrar de outro jeito. Pense em uma fogueira.
O velho fechou os olhos para imaginar.
– Uma fogueira viva. Que aquece, clareia, reúne gente ao seu redor.
O velho continuava de olhos fechados.
– Agora, imagine que alguém decide economizar a lenha. Coloca menos. O mínimo. No começo, parece prudência. Depois, o fogo enfraquece. O calor diminui. As pessoas se afastam.
O velho respirou fundo.
– Agora, imagine o contrário. Cada pessoa começa a trazer um pouco de lenha. E essa lenha é oferecida como gestos de generosidade, experiências de entrega, de momentos em que alguém deu de si, como retribuição, sem estar preso à meta.
O velho respirou fundo novamente.
– O fogo cresce. O calor volta. As pessoas se aglutinam ao redor.
O velho abriu os olhos.
– Um negócio é uma fogueira abastecida por uma equipe. Quando a equipe é vista como folha de pagamento, você pensa em reduzir a lenha que abastece a fogueira. Mas quando todos se alimentam da fogueira, cada pessoa volta com mais energia, sentido, vontade de contribuir.
O velho voltou a olhar para os papéis. Eles ainda estavam ali, inertes. E não diziam tudo.