De quem é a culpa?

Quando Mao Tsé-tung criou a República Popular da China, o país estava devastado pela peste e a fome. Fazendeiros se queixavam de que os pardais estavam comendo os grãos das plantações. Fizeram as contas: cada uma dessas aves comia quatro quilos por ano. Pensamento lógico e analítico: para aumentar o rendimento da agricultura era preciso dar cabo dos pardais.

Cidadãos chineses travaram uma batalha contra os comilões em 1960, motivados por recompensas e reconhecimentos oficiais. Desfaziam ninhos, quebravam os ovos, abatia-nos de várias maneiras, inclusive por exaustão, mantendo-os em voos constantes, impedidos de posar, assustados com o barulho da bateção de panelas, frigideiras e tambores. Acabaram com cerca de um bilhão deles.

O que os chineses não imaginavam, no entanto, é que a dizimação da espécie acarretou um enorme desequilíbrio ambiental no país. Como não havia pardais para comê-los, o número de gafanhotos e lagartas aumentou drasticamente. Tamanha proliferação fez com eles destruíssem as plantações e, consequentemente, as colheitas. O resultado não poderia ter sido pior: a peste e a fome aumentaram ainda mais.

Por causa disso, calcula-se que entre 20 a 50 milhões de pessoas morreram, de tal forma que o governo teve de importar pássaros da União Soviética para restaurar o equilíbrio. Durante todo o processo, no entanto, houve danos irrecuperáveis.

Com base nessa história assustadoramente real, resgato dois conceitos importantes: a importância do equilíbrio e o exercício do pensamento sistêmico.

Para facilitar a compreensão, criei a metodologia CMA, apresentada no livro A Empresa de Corpo, Mente e Alma. Por ser a parte tangível e visível, é normal que as atenções se voltem mais para o corpo. É o que aconteceu com a China. Problema: a peste e a fome. Culpado: o bando de aves. Pensamento analítico e linear: matar os pardais.

Não é diferente com muitas empresas. Problema: resultados negativos. Culpado: o montante de custos. Pensamento analítico: reduzir os custos, incluindo a folha de pagamentos.

É a visão concentrada no corpo tentando resolver o problema por meio do próprio corpo, ignorando os efeitos tanto na mente como na alma da empresa. A “solução” talvez conduza a um alívio temporário nos efeitos declarados pelo corpo em troca de um agravamento na mente e na alma, estendendo o desequilíbrio de curto prazo para o médio e o longo prazos.

Pensar sistemicamente é lembrar que, assim como todo o projeto e o trabalho, a empresa possui corpo, mente e alma. Impossível mexer em uma parte sem que as outras sejam afetadas. Embora o desequilíbrio seja uma sina, provocado por múltiplos fatores, o equilíbrio deve ser uma busca constante. Com ampla visão.

Pense nisso, antes de abater os pardais.

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