
Há algo sagrado no instante em que uma pessoa se coloca diante da urna, nas eleições. Por alguns segundos, fica a sós com a própria consciência. Carrega consigo o que viveu, teme, aprendeu e deseja. E, com um gesto pequeno, participa de uma escolha imensa.
Naquele instante, ninguém pode escolher em seu lugar. É um exercício de autonomia. A liberdade tem essa grandeza, mas também um peso.
Escolher é dar uma direção à esperança. É reconhecer que o amanhã nos diz respeito e que temos responsabilidade por sua construção. Por isso, o voto merece reflexão, cuidado e uma pergunta que ultrapasse os interesses imediatos: que vida a minha escolha ajuda a tornar possível? Para mim, para os outros, para aqueles que ainda virão?
Amanhã, iremos às urnas. Depois, cada um de nós voltará para casa. E é na volta que começa a parte mais exigente da democracia.
Vamos encontrar o vizinho que votou diferente, o colega de trabalho cuja convicção nos parece incompreensível, o irmão com quem a conversa ficou pela metade. Gente com quem continuaremos dividindo a rua, a mesa, os desafios, o país.
As urnas terão recebido nossos votos. A vida continuará aguardando nossas atitudes.
É possível defender uma ideia com firmeza e tratar com dignidade quem a contesta. É possível discordar profundamente e ainda aceitar e desejar compreender o outro ponto de vista. Isso exige domínio de si, disposição para escutar e humildade para admitir que nenhuma pessoa enxerga o horizonte inteiro.
A democracia amadurece nesses encontros.
Qualquer que seja o resultado, haverá trabalho a fazer. Aos que celebrarem, caberá a grandeza de acolher e a responsabilidade de cobrar de quem elegeram. Aos que se entristeceram, caberá preservar a voz, fiscalizar, propor e continuar participando. O compromisso com o bem comum pede presença em ambas as situações.
Uma vitória eleitoral recebe a confiança de uma parte da população e assume responsabilidade diante de toda ela, integralmente. Uma derrota preserva o direito de oposição e dos deveres da cidadania.
O país continua sendo de todos.
Amanhã, depositaremos na urna uma escolha consciente. Que a liberdade de escolher venha acompanhada da nobreza de conviver.
Depois que as urnas se fecharem, continuará aberta possibilidade de fazermos, juntos, um país onde a vida se engrandeça.