Uma compra ou um filme de terror?

Aportamos, eu e minha adorável companheira, na loja do shopping para troca de aparelho celular, presente que estava se transformando em promessa não cumprida, devido falta de tempo para tal. Nessa manhã de sábado, resolvi saldar a dívida.

As lojas mal começaram a abrir suas portas e lá estávamos, na esperança de resolver e retornar para casa. Afinal, ainda estamos atravessando uma pandemia.

Depois de escolhido o aparelho, o funcionário nos apresentava, ou melhor, empurrava uma porção de acessórios, sempre naquela linguagem incompreensível dos magos da tecnologia. Percebi o empurrômetro que ignorava por completo as nossas necessidades e soube, então, que dependendo do montante de acessórios vendidos no dia, o funcionário poderia, como prêmio, ir para casa mais cedo.

Perguntei à ele se ir para casa era um sentimento oba! ou ufa!, no que ele prontamente respondeu: oba!, certamente para compensar um trabalho ufa!

Quem pensou esse tipo de premiação provavelmente entende que o fardo de um trabalho maçante e sem significado deveria ser compensado com algo fora do trabalho que traga algum tipo de compensação.

Quando escrevi Rico de Verdade, discorri sobre a tática da foca e os peixes tóxicos. Não vou me estender aqui sobre essas abordagens, já fiz várias vezes. O que ainda me espanta é saber o quanto ela continua atual.

O filme de terror não para por aí, embora já estivéssemos próximos da hora do almoço. Agora vinha o mais desastroso: a transferência dos arquivos de um aparelho para outro. Para isso, entra em cena outro funcionário, escalado para atender mais de um cliente ao mesmo tempo, abusando descaradamente dos três DES do desastre empresarial: desatenção, desinteresse e desamor pelo cliente. À favor da eficiência, demonstração total de negligência. Como a venda e o recebimento já havia sido feitos, restava agora a situação de refém e aguardar a boa vontade do multifuncionário para não ter de ir embora sem condições de uso do novo aparelho.

Perguntei à ele se sabia o que era AIA. Respondeu-me que sim. Será que ele conhecia o meu mais recente livro, Capital Relacional? – cogitei ingenuamente. O esclarecimento veio em seguida:

– É um tipo de inteligência artificial?

Respondi que não. Uma inteligência artificial – argumentei – jamais seria capaz de praticar AIA, ou seja, atenção, interesse e amor pelo cliente. Justamente o contrário do que eu experimentava naquela tarde de sábado.

Estávamos próximos das 16h quando refleti com os meus botões: a Nova Economia, apregoada em meus livros, é ainda um oásis nesse árido deserto de empresas míopes e ultrapassadas.

Quiçá empresários e líderes tenham olhos de ver e ouvidos de ouvir para criar empresas que sejam mais humanas, éticas e prósperas. E, juntos, forjar uma Nova Economia de verdade.

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