O que a criança não esquece

Há coisas que a gente aprende quando cresce. Há outras que a gente desaprende.

Aprendemos a ler, escrever, calcular, argumentar, negociar, planejar. Aprendemos a chegar na hora, a cumprir prazos, a fazer escolhas, a cuidar do dinheiro e a desconfiar de certas promessas. Aprendemos, sobretudo, a nos proteger.

Desaprendemos, no entanto, algumas coisas que sabíamos sem saber que sabíamos.

É por isso que gosto do Dia da Criança. Não apenas porque é uma data para celebrar os pequenos, dar presentes, comer bolo ou recordar fotografias em que nossos cabelos eram diferentes – no meu caso, quando havia cabelos – e o mundo parecia muito maior.

Gosto porque a criança pode ser uma espécie de mestra. Não tanto pelo que sabe, mas pelo jeito de olhar. 

A criança olha para uma formiga carregando uma folha e interrompe o caminho para acompanhar aquela aventura. Nós passamos por cima do inseto, distraidamente.

A criança pergunta por que o céu é azul, por que a lua nos acompanha, por que determinada pessoa fala daquela forma,  por que o adulto está triste. Pergunta porque quer mesmo saber, não porque precisa parecer inteligente.

A criança ainda não aprendeu que existem perguntas inconvenientes. Nem que algumas pessoas são importantes demais para ser questionadas. Nem que outras são insignificantes demais para merecer nossa atenção.

Ela olha, antes de classificar. 

A criança encontra outra criança e, em poucos minutos, brincam juntas. Não pergunta em quem ela vota, quanto ganha o pai, qual é a sua religião, que carro a família tem, de onde veio, em que escola estuda.

Ainda não construiu tantos muros. Ainda não existe o “nós” e o “eles”.

É claro que a infância não é um território de pureza absoluta. Crianças também brigam, sentem ciúmes, têm medo, mentem, disputam. Não precisamos idealizá-las. Há algo, porém, que a vida adulta, muitas vezes, vai cobrindo de camadas: uma disponibilidade para o mundo.

A criança está ali. Inteira. Quando brinca, brinca. Quando ri, ri. Quando chora, chora. Quando descobre alguma coisa, maravilha-se.

Há uma espécie de presença sem distração. Uma curiosidade sem agenda. Uma simplicidade que não é pobreza de pensamento, mas liberdade diante do que ainda não sabe.

Há uma cena de infância que mora em cada um de nós. Pode ser uma rua, uma árvore, uma casa, um quintal. Pode ser o cheiro de uma comida, a voz de alguém que já partiu, uma brincadeira inventada, um amigo, um professor. Pode ser uma tarde inteira fazendo absolutamente nada e, ainda assim, sentindo que a vida estava acontecendo.

Aquela criança que fomos ainda está guardada numa parte importante de quem somos. 

O que há naquele olhar e que o adulto perdeu? 

Que pergunta deixamos de fazer? 

Que preconceito aprendemos? 

Que simplicidade complicamos? 

Que capacidade de maravilhamento trocamos por pressa?

O que ela ainda pode nos ensinar? 

Por fim, que valor da sua infância você se recusa a deixar para trás?

Salve o Dia da Criança e a criança que ainda mora em nosso coração. 

 

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