O café ainda está quente

Se eu pudesse visitar hoje o ateliê do Velho Taful, levaria uma pergunta. Imagino os livros disputando espaço com os discos, os objetos trazidos de suas viagens e a Ritinha, a cafeteira italiana, ocupada com o café quentinho.

– Velho Taful, até onde vai o propósito de uma pessoa?

Ele provavelmente me pediria que apanhasse as xícaras.

– Antes de lhe responder, Aladim, conte o que anda fazendo.

Eu falaria da Escola de Oportunidade, dos benignadores, do Instituto Economia ao Natural. Contaria da ânsia de que mais pessoas pudessem descobrir seus próprios desejos e encontrar condições de vivê-los. Falaria, também, das dificuldades. Há tanta vida à espera de uma oportunidade que, às vezes, o que fazemos parece pequeno.

Imagino o velho me escutando com atenção e sem pressa. Depois, ajeitando a xícara no pires, ele perguntaria:

– Você ainda se lembra daquele ônibus?

Como esquecer? Eu lia um livro e ele puxou conversa. Respondi com a brevidade de quem deseja continuar concentrado na leitura, embora estivesse sentado ao lado de alguém disposto a dialogar. Para minha sorte, o passageiro – o próprio Taful – insistiu.

Naquele dia, eu não procurava um mestre. Muito menos imaginava que um senhor de chapéu e bigodes teria alguma participação no rumo da minha vida. Estava apenas indo à Barra Funda, esse antigo bairro de São Paulo.

– Lembro, sim. Mas o que o ônibus tem a ver com a minha pergunta?

Na conversa que invento para matar a saudade, Taful sorriria, para em seguida perguntar: 

– Você acha que desceu sozinho?

Eu começaria a responder e daria uma pausa no meio. É possível que ele risse da minha demora.

O velho seguiu comigo. Estava presente quando comecei a escrever, quando aprendi a escutar uma pergunta sem a menor pressa de encerrá-la com uma resposta, quando me pus diante de uma turma de benignadores. 

Quando ouço falar dos três graus de influência, dessa repercussão que pode alcançar pessoas além das nossas relações diretas, penso no Velho Taful. Quantas pessoas terão recebido alguma coisa fruto daquele encontro fortuito, sem jamais terem ouvido o nome dele? 

Não consigo contá-las. Sei que quando alguém ajuda outrem a reconhecer um desejo e a dar-lhe passagem, há um pouco de Taful nisso tudo. 

A Escola de Oportunidade ganha, para mim, esse sentido. No  Instituto Economia ao Natural, preparamos benignadores para que outros encontros sejam possíveis. Cada pessoa chegará com sua história. Precisará de espaço para falar, de condições para aprender e de liberdade para descobrir a própria direção.

Volto ao ateliê que a saudade recompõe.

– Acho que entendi, Velho Taful.

Imagino que ele ergueria uma sobrancelha, cofiaria o bigode, desconfiando do meu entendimento. 

Então, me estenderia uma xícara. O café ainda está quente. Há muito que conversar. Sem pressa. Ao diálogo, portanto, com a profundidade que merece.

 

 

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