
A reunião começou às nove. Às nove e cinco alguém perguntou:
– Quem tomou essa decisão?
Silêncio.
Às nove e sete, outro completou:
– Se dependesse de mim, eu não teria feito assim.
Mais alguns minutos e a sala já estava cheia de opiniões.
Era curioso. Ninguém parecia ter participado da decisão, mas todos tinham alguma coisa a dizer a respeito.
O líder, um pouco aflito, tentou explicar:
– Nós conversamos sobre isso na reunião passada.
– Eu não estava – disse um.
– Eu estava, mas não entendi que era para valer – comentou outro.
– Eu ouvi, mas achei que vocês fossem decidir de outro jeito – acrescentou uma terceira pessoa.
E assim, em poucos minutos, a reunião havia se transformado em uma espécie de terra de ninguém. Havia apenas uma decisão, mas muitos não se sentiam responsáveis por ela.
Já participei de muitas reuniões assim e acho que você, também. É uma cena bastante comum nas empresas: todos querem participar, desde que participar signifique ser consultado depois que a decisão foi tomada.
Há uma diferença entre ter voz e tomar parte. Ter voz é poder falar. Tomar parte é assumir uma parcela da responsabilidade pelo que acontece depois.
Foi então que alguém, naquela reunião, lembrou uma palavra que às vezes parece esquecida nas equipes: consenso.
Consenso não é unanimidade. Ninguém precisa pensar exatamente igual. É outra coisa: argumentar, discordar, contribuir, mudar de ideia e, depois da decisão, dispor-se a sustentar aquilo que foi decidido.
O consenso não elimina a divergência. Dá à divergência um lugar antes da decisão e à responsabilidade, um lugar depois dela. Isso é gestão participativa.
Em breve, milhões de brasileiros irão às urnas. Precisamos pensar, nesse momento, em uma pergunta simples: o que estamos fazendo quando votamos?
Estamos fazendo uma aposta. Não uma aposta na sorte. Uma aposta consciente.
Toda escolha sobre o futuro contém alguma incerteza. Quando escolhemos, escolhemos com aquilo que conseguimos enxergar hoje: informações, experiências, valores, propostas, histórias, sinais.
Depois, o futuro responde. Às vezes confirma, outras vezes surpreende.
É assim também em uma empresa. Quando a equipe decide lançar um produto, entrar em um mercado, mudar um processo ou apostar em uma pessoa, ninguém recebe a fotografia do amanhã.
A diferença está em como fazemos a aposta. Com informação ou com boato? Com reflexão ou com impulso? Com responsabilidade ou simplesmente seguindo a manada? Enfim, com ou sem consciência?
Há uma segunda parte, ainda mais difícil. A escolha termina. A convivência, não.
Em uma eleição, cada pessoa faz a sua escolha, mas o resultado pertence ao conjunto. Depois da escolha, continuamos pertencendo ao mesmo lugar, à mesma cidade, ao mesmo país, à mesma sociedade.
A vida não termina na urna. Começa de novo, no dia seguinte.
Aquela reunião terminou sem unanimidade, mas com algo melhor: uma decisão que todos estavam dispostos a apoiar.
Na saída, um dos participantes me disse:
– Engraçado. Eu ainda acho que a outra opção seria melhor.
– E vai apoiar essa?
Ele sorriu.
– Fui vencido na discussão, mas não fui derrotado na responsabilidade.
Participar não é garantir que a nossa vontade prevaleça. É garantir que a nossa consciência esteja presente no momento da escolha.
Decidir – ou votar – é uma aposta. Consenso é a disposição de sustentar juntos aquilo que decidimos. Responsabilidade é aquilo que permanece quando a reunião termina, a urna se fecha e a vida continua.
A aposta é individual. A consequência é de todos. Justamente por isso vale a pena estar presente quando chega a hora de escolher.