Às margens do rio

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, dizia o filósofo grego Heráclito. Nem o rio, nem a pessoa, são os mesmos. Muitas empresas e líderes sofrem por isso: o rio mudou, mas muitos de nós ainda tentamos navegar com lentes antigas.

Empresas, mercados, concorrência, clientes, tecnologias, relações de trabalho, gerações, tudo está em movimento. A correnteza ganhou velocidade e, quando a correnteza muda, margens frágeis começam a ceder.

Foi assim que conheci Seu Anselmo. 

Seu Anselmo não abriu sua empresa por vaidade empreendedora. Decidiu por uma questão de sobrevivência, como tantos outros brasileiros. Construiu seu negócio em meio à insegurança, apertos e medo de faltar. Aprendeu cedo que precisava controlar tudo, desconfiar de quase todos e trabalhar com afinco. 

Suas crenças pareciam fazer sentido: “o porco só engorda aos olhos do dono”, “concorrente bom é concorrente morto”, “é preciso assegurar o leitinho das crianças”. Sem que ele percebesse, a empresa nasceu e foi crescendo sob a lente da escassez.

O tempo passou, o rio mudou e as crenças que ajudaram Seu Anselmo a atravessar os primeiros anos começaram a se transformar em miragens que o impediam de enxergar mais fundo e mais longe. O controle virou sufoco, a centralização virou lentidão, o medo virou desconfiança. As margens foram se estreitando e a empresa dependia mais do dono do que de uma cultura. 

Foi então que surgiu Jarina.

Sensível, dedicada e humana, ela chegou para ajudar Seu Anselmo a lidar com aquilo que mais o cansava: gente. Como era conhecida da família, parecia confiável. Jarina trouxe acolhimento, proximidade e proteção. Carregava, no entanto, sua própria miragem: acreditava que liderar era evitar desconfortos. Pouco a pouco, começou a amortecer conflitos, suavizar exigências e proteger excessivamente o time. A empresa deixou de ser dura, mas passou a ficar frágil.

Seu Anselmo e Jarina, sem perceber, estavam construindo uma empresa-poça d´água: quando chovia, encharcava; quando não chovia, secava rapidamente. Em outras palavras: a empresa vivia ao sabor das circunstâncias, ou seja, as correntezas prevaleciam sobre as margens.  

Penso que esse quadro não é estranho a muitas empresas. Há negócios tecnologicamente modernos, mas culturalmente frágeis. Empresas que falam sobre inovação, mas ainda operam a partir do medo, da dependência, do controle ou da infantilização das relações. Organizações em que clientes viram números, pessoas se tornam apenas peças e líderes vivem apagando incêndios operacionais e emocionais.

Seu Anselmo começou a mudar quando percebeu que prosperidade não é retirar valor do mercado, mas nutrir o mercado. Jarina começou a mudar quando compreendeu que humanizar não é proteger pessoas da travessia, mas fortalecê-las para que tenham autonomia para atravessar.

Foi a partir daí que as margens se fortaleceram.

Uma cultura ética, humana e próspera se instala a partir da qualidade da lente através da qual enxergamos o mundo, as pessoas e nós mesmos. Ela se torna forte quando a consciência se sobrepõe ao automatismo, a responsabilidade não cede espaço à vitimização, a contribuição substitui extração e a dignidade toma o lugar da utilidade.

A inteligência artificial poderá acelerar nossos barcos. Correntezas rápidas exigirão tecnologia. Margens firmes, no entanto, continuarão dependendo de uma cultura e cultura é, e sempre será, artefato humano. 

 

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