A árvore que parecia viva

Caminhando pelo Parque da Aclimação, uma cena interrompeu meus passos. Parei diante de uma imensa árvore, que funcionários da prefeitura preparavam para derrubar. Com seu tronco vigoroso e a copa larga, nada indicava algum problema. Foi então que um dos funcionários, percebendo minha indignação, disse quase em voz baixa:

– Ela morreu.

Olhei novamente. As folhas continuavam verdes. Os galhos pareciam firmes. Nem o vento conseguia revelar o que ele afirmava com tanta convicção. 

– Tem certeza? – perguntei, ainda ressabiado.

Ele apenas repetiu:

– Morreu, sim. Só que a árvore ainda não sabe.

Retomei minha caminhada pensando. Como pode uma árvore morrer sem que ninguém perceba? O funcionário explicara que as raízes haviam adoecido há muito tempo. A copa apenas demorava para receber a notícia. 

Continuei pensando a respeito, enquanto encerrava a minha caminhada – primeiro morrem as raízes e, depois, muito tempo depois, as folhas. 

Foi inevitável não lembrar do que ocorre em certas empresas. Algumas parecem exuberantes. Os estacionamentos estão cheios. Os relatórios impressionam. As metas são alcançadas. Os produtos continuam sendo vendidos. Quem passa por elas acredita estar diante de uma organização saudável, mas, sob a superfície, as raízes já não alimentam a vida. Há muito tempo deixaram de responder à pergunta que lhes deu origem:

Por que existimos?

Curiosamente, essa é a última pergunta que costuma ser feita. As questões se referem a faturamento, produtividade, crescimento, inovação, inteligência artificial, expansão, competitividade… quase ninguém pergunta pelas raízes.

Raízes não aparecem, essa deve ser uma das razões. Não se estampam nos relatórios, não são fotografadas nas matérias das revistas de negócios, entretanto, sustentam tudo o que é visível.

Uma empresa não começa a morrer quando perde clientes nem quando o mercado é subtraído, muito menos quando enfrenta uma crise econômica. Começa a morrer quando perde o motivo pelo qual vale a pena conquistar clientes, disputar mercados e enfrentar crises.

A esse motivo dá-se o nome de propósito.

A palavra tornou-se comum, até comum demais. Gastaram o seu sentido. Muitos a colocaram na parede, poucos a plantaram na terra.

Propósito não é um slogan, é uma raiz. É aquilo que ninguém vê e do qual tudo depende. 

Uma empresa com propósito enfrenta tempestades e continua crescendo. Sua força não vem apenas dos ventos favoráveis, mas da profundidade de suas raízes.

Uma empresa sem propósito, no entanto, pode viver anos de aparente prosperidade, assim como aquela árvore prestes a ser derrubada. Até o dia em que uma ventania qualquer revele aquilo que o funcionário da prefeitura revelara.

Depois disso, sempre que encontro uma empresa admirada por todos, observo curioso os seus frutos, a sua sombra, o tamanho da sua copa. Mas não deixo de fazer a pergunta crucial: como estão suas raízes?

Aprendi que toda árvore morre de baixo para cima.

 

 

Se inscrever
Notificar de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Quem leu esse artigo também leu esses:


Vamos conversar?