“Está faltando gente para trabalhar.”

Essa é a frase que se tornou recorrente nas conversas empresariais. Falta gente para a indústria, o comércio, os serviços. Da mesma forma, em restaurantes, construção civil, logística, tecnologia, apenas para citar alguns setores em que tenho escutado a mesma cantilena.

Acontece que a “mão de obra” mudou e muitos empregadores ainda não se deram conta. 

Renato Meirelles, no livro Brasil da Maioria (Editora Record, 2026), acompanhou 25 anos da população e mostra uma transformação que não pode ser compreendida apenas por indicadores de renda. A classe C – a maioria dos brasileiros – mudou os hábitos, as aspirações, a relação com o consumo, a percepção de valor e, principalmente, a consciência sobre o lugar que ocupa na sociedade, inclusive não aceitar mais ser tratada como mão de obra.

Nos anos 2000, milhões de brasileiros experimentaram uma ascensão econômica que ampliou suas possibilidades. O que antes era distante passou a fazer parte do horizonte: casa melhor, carro, viagem, curso, faculdade para os filhos, negócio próprio. A frase que melhor traduz aquele momento é: “eu também posso”.

Depois veio a crise e, com ela, uma outra preocupação: “não quero perder o que conquistei”. Daí surge uma nova consciência: “eu quero escolher”.

O Brasil da maioria quer escolher onde e como trabalhar, o que aprender, o que aceita ou não aceita, enfim: que vida deseja construir.

A pessoa que hoje entra em uma empresa é a mesma que, como consumidora, pesquisa preços no celular, avalia alternativas, exige respeito e pergunta se aquilo que compra vale realmente quanto custa. 

Faz o mesmo ao procurar um emprego. De consumidor exigente a trabalhador exigente. Quem aprende a escolher como consumidor não desaprende a escolher quando se torna trabalhador. O mercado de trabalho passou a ser um mercado de escolhas. 

Se o consumidor tem autonomia para escolher, o trabalhador espera ter a mesma autonomia no trabalho. Se o consumidor avalia a relação valor/preço quando consome, o mesmo faz com relação ao trabalho quando avalia esforço/salário. 

Diante disso: está, mesmo, faltando gente para trabalhar? Ou as ofertas de emprego pararam no ano 2000? 

Muitas empresas oferecem o trabalho do passado para a pessoa do futuro. Disponibilizam cargo, quando ela quer desenvolvimento; controle, quando ela quer autonomia; treinamento, quando ela quer aprendizagem; benefícios, quando ela quer qualidade de vida; estabilidade, quando ela quer possibilidade.

Não se trata de abandonar aquilo que as empresas tradicionalmente oferecem, mas acrescentar algo que se tornou indispensável: oportunidade.

A empresa pode ser o lugar onde alguém entra, aprende, experimenta, desenvolve competência, conquista autonomia, assume responsabilidades, cresce. O desafio, portanto, não é reter talentos, mas fazer com que os talentos queiram ficar. 

Por isso, a empresa precisa parar de perguntar “onde estão as pessoas que querem trabalhar?” e começar a perguntar “que tipo de trabalho estamos oferecendo às pessoas?”.

E se o problema não estiver na falta de gente, mas na falta de imaginação das empresas para criar o trabalho do futuro? 

Não falta gente. Falta uma nova oferta de emprego que inclua sentido, participação, autonomia, desenvolvimento e futuro.

Se há gente procurando uma vida melhor, por que não conseguimos oferecer um trabalho que faça parte dessa vida?

Oportunidade é a possibilidade de construir, juntos, a nova vida.

 

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Guego Favetti
Guego Favetti
1 mês atrás

Maravilhoso texto, Roberto! Deveria se transformar numa cartilha para que os empresários nas entidades patronais, passasem a ler e refletir sobre o assunto. Grande abraço

Rubia Staidel
Rubia Staidel
17 dias atrás

Sempre assertivo em suas palavras.

Podemos ficar reclamando do que não está no nosso controle, ou focar naquilo que temos poder de transformar. E ser um empresa interessante para o funcionário está em nossas mãos.

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