Nosso rico e pobre fadário

Enquanto dirigia, esposa ao lado, nós nos divertíamos com fabulações, buscando na memória termos populares inspirados em nossa rica fauna. Como é vasta – e ao mesmo tempo interessante – a maneira como recorremos aos mais diversos animais para criar metáforas, analogias e descrições, simplificando explicações mais detalhadas.

Certamente o leitor e a leitora vão reconhecer vários desses termos que atravessam os tempos. Muitos deles, ouvimos dos nossos avós, mas continuam tão atuais como usuais.

Naquela manhã de inverno paulistano, seguíamos felizes:

– Olhar de cobra – dando o lance inicial.

– Focinho de porco – ela respondeu, de primeira.

– Mais devagar do que uma lesma – continuei.

– Parece um pavão – prosseguiu.

Subíamos a rua do Paraiso em direção à avenida Paulista, no trânsito intenso:

– Boquinha de siri – ríamos, enquanto identificávamos as situações em que as analogias faziam sentido.

– Vontade de enfiar a cabeça em buraco, tal qual uma avestruz.

– Se apostar a corrida com uma tartaruga, chega depois dela.

Nem todas são muito simpáticas:

– Não vai se meter com aquelas piranhas.

– Parecem maritacas conversando.

– Enxerga como uma toupeira.

E assim seguíamos buscando na memória uma série imensa de comparações:

“Cacareja como uma galinha quando bota um ovo. Lembra uma formiga, não pode ver doce. Dá coices como um cavalo. Nem se aproxime, parece um porco-espinho. Cheira pior do que um gambá. Presta atenção como uma coruja. Canta como um rouxinol. Ele é o patinho feito da família. Ela é a ovelha negra da família. Deixou-se levar pelo canto do cisne. Ela sofre de bico de papagaio. Anda para lá e para cá feito uma barata tonta. Colocaram a raposa no galinheiro. Pare de fazer macaquices! Mais teimoso do que uma mula. Ele é um gato. Ainda pego aquele cachorro. Parece um camaleão, cada dia está de um jeito. ”

– Cuidado com a boca de lobo! – disse ela, alertando para o cone sinalizando o desvio.

– As ruas da cidade estão cheias de costelas de vacas – arrematei.

Como se não bastasse, havia mais:

“Hoje, baixou o bicho preguiça nela. Gruda mais que carrapato. Você é a mosca que pousou na minha sopa. Olhos de lince. Mais burro do que uma anta. Parece um bando de urubus disputando a mesma carniça. Hoje vamos lavar a égua. Êh égua! Orelha de morcego. Passo de elefantinho. Mais enfezado que galo garnisé. Não sou tatu para andar debaixo da terra (essa é para os que não andam de metrô). Parece um peru em véspera de Natal. Cão que ladra não morde. Mais traiçoeiro do que uma serpente. Parece uma jiboia. Cuidado com aquela jararaca. Melhor do que abelha no mel. Cuidado para não enfiar a mão em um vespeiro. Incomoda mais que mosquitinho borrachudo. Mais forte do que um touro. Amigo da onça. Parecem dois pombinhos. ”

Alguns são preconceituosos, outros, jocosos:

– Olha a perereca da vizinha!

E existem até os filosóficos:

– O homem é o lobo do homem.

Até Jesus fazia bom uso das analogias:

– Raça de víboras!

Tudo corria bem até que ouvimos um estrondo na janela ao lado do passageiro, onde estava a minha parceira. Era mais um roubo de celular na nossa perigosa capital.

– Espírito de porco! – foi tudo o que consegui balbuciar.

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Madu Targino
Madu Targino
6 meses atrás

Oi Beto! Essa situação é muito desconfortável. Ainda bem que vocês não sofreram nenhum tipo de violência física.Mas o emocional fica muito abalado. Além de atrapalhar toda a rotina, ainda resta o prejuízo material, e a certeza da impunidade.E ter que aceitar que foi apenas mais um caso, dentre milhares que ocorrem todos os dias.

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