Em busca da conexão correta

Quando o cientista e astrofísico Carl Sagan teve a ideia da foto do planeta Terra a partir da sonda espacial Voyager I, nós nos demos conta de nossa insignificância. Séculos atrás, nossa autoestima havia sido abalada com a descoberta de que o Sol não gira ao redor da Terra, ao contrário – embora ainda exista quem continue acreditando no inacreditável, muitas são as imagens para atestar a verdade. Não estávamos, portanto, com a bola toda. De lá para cá, a nossa nulidade só fez aumentar. A foto, registrada em 14 de fevereiro de 1990, de uma distância de 6 bilhões de quilômetros, equivalente a quarenta vezes e meia a distância entre o Sol e a Terra, retratava uma Casa Comum ínfima e perdida na imensidão do espaço.

É espantoso que naquele “pálido ponto azul”, como definiu Sagan, possa haver tanta discriminação, racismo, homofobia, divisão, exclusão, autoritarismo, escravidão, exploração e vilanias de tantas espécies. Como, em tão irrisório planeta, pode caber tamanha infinidade de ganância, arrogância, egoísmo e vaidade? 

Quatro anos após, em um discurso na Universidade de Cornell, Sagan dizia que aquela imagem “deveria inspirar mais compaixão e bondade em nossas relações, e mais responsabilidade na preservação desse precioso pálido ponto azul, nossa casa, a única que temos”. Pois se cabe tanta ganância, arrogância, egoísmo e vaidade, também cabe compaixão e bondade. E essa é a escolha que, cada um de nós deve fazer, todos os dias.

Catastrofismo à parte, aquele “pálido ponto azul” corre risco. É um lugar finito em um espaço infinito. Em 2015, o Papa Francisco publicou a Carta Encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da Casa Comum, pontuando 246 reflexões e propostas de ação para mantê-la viva. Sim, “cuidado” é o destaque!  Mais que uma palavra, é um valor. Deveríamos imprimi-lo em todos os pedaços da Casa Comum: na família, na escola, na igreja, na empresa. Substituir crenças vorazes por valores virtuosos contribuiria muito para o bem-estar no único lar que temos.

O renomado cientista brasileiro Marcelo Gleiser nos ensina a regra ética essencial: “trate todas as formas de vida como quer ser tratado; trate do planeta como quer que sua casa seja tratada”.  

São Francisco de Assis, inspirador do Laudato Si’ apregoava no Cântico das Criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

Também os poetas populares dão o seu recado. Os versos de Nilson Chaves e Eliakim Rufino ressoam na voz de Socorro Lira (CD Entre Águas e Desertos): “a pedra canta, a planta fala, o rio vê. O vento sente, a chuva chora, o raio lê. Tudo é o mesmo ser. Gaia, Gaia, tudo está vivo, tudo respira, eu e você”.

Gaia seja louvada graças ao cuidado que todos nós lhe devotamos! 

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Sônia Fonseca
Sônia Fonseca
2 anos atrás

Meu querido Roberto,
Ler suas reflexões e/ou provocações é sempre um convite à uma viagem interior e uma análise sobre o percurso: avancei… regredi…? A Metanoia me deu consciência dessa permanente atenção na caminhada e cada vez que me sinto conectada com “Algo Maior” lembro de você, de Ivo e de toda equipe da CEMPRE que sabe nos abraçar tão bem.
Estou desde fevereiro/19 vivendo em Madrid, fazendo pós-doc na Universidad Autónoma de Madrid. Seu texto, além de outras reflexões que fiz, mostra a realidade do verão na Espanha. Temperaturas de 40 graus, umidade relativa do ar, 15%. Clima de deserto. O planeta não aguentará esperar medidas para 2050. É preciso de medidas para ontem. É preciso que nós humanos coloquemos nossos óculos de grau e limpemos a cera dos ouvidos para vermos e ouvirmos: ” “a pedra canta, a planta fala, o rio vê”. Ainda bem que pessoas como as da Cempre existem e emprestam seus corações que nos inspira e mostra o caminho para a consciência.
Um grande abraço a você e toda equipe CEMPRE.

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